setembro 21, 2017

DIA 21 DE SETEMBRO! DIA DA ÁRVORE: EMBAÚBA! É PRIMAVERA!




DIA DA ÁRVORE: EMBAÚBA!




O dia 21 de Setembro, além de ser o dia da árvore, marca também a chegada da primavera. Por esta razão o dia da árvore foi escolhido nesta data, junto com a primavera. No Brasil, há 30 anos é comemorado o dia da árvore junto com o início da primavera. Com o dever de explicar a importância das árvores.
Em Botucatu comemoramos a EMBAÚBA como ÁRVORE SÍMBOLO. Assim, nada mais oportuno que trazermos o Registro Histórico dessa co0memoração

A revista botucatuense de cultura PEABIRU, edição especial, nº 22, de janeiro/fevereiro de 2008, trouxe o excelente artigo do saudoso colaborador Cláudio de Almeida Martins, especialista em programas pedagógicos e de desenvolvimento gerencial, escritor e funcionário aposentado da CESP, sobre a Cuesta de Botucatu, com o título de “CUESTA RASGADA”, onde busca resgatar a beleza e os valores ambientais típicos da nossa região.
Com destaque para a EMBAÚBA que é uma árvore típica do cimo da Cuesta de Botucatu. A EMBAÚBA que também é conhecida por Umbaúba, Ambaíba, Ambaúba, Imbaúva ou Imbaúba é árvore da família das Moráceias (cecropia palmata): é árvore de tronco indiviso.Embaubal é o bosque de embaúbas. Também é chamada de árvore dos macacosou árvore-preguiça ou torém.
O antigo traçado da Sorocabana passava por Vitória (Vitoriana), Lageado e...Embaúba! Sim, Embaúba é uma pequena Vila pertencente a Botucatu que até hoje é procurada pelos amantes da pesca por ser um local ideal e piscoso.
Hoje, o descuido e o desrespeito à natureza reduziu muito o número de Embaúbas em nossa região, em nossa cuesta, mas como a natureza é pródiga, ainda a encontramos pela cidade e o exemplo pode ser visto no Vale do Sol, em uma pequena ilhota no Grande Lago, onde encontramos uma Embaúba que “teimou” em crescer entre capivaras, patos e cisnes...e no novo jardim da Prefeitura Municipal onde foi plantada uma bela muda de Embaúba.

O “JORNAL DA CUESTA”, moderno periódico que circulou em 2004, impresso nas rotativas do “Jornal da Cidade”, de Bauru, trazia a Embaúba como símbolo ecológico do jornal.

Cuesta Rasgada


                                       Cláudio de Almeida Martins


No princípio de uma manhã, soltei-me da ponta de uma folha de embaúba, lá do cimo da Cuesta.
No início, quase devagar e flutuando, meu corpo começou a girar e a cair.
Não havia escolhido o percurso a seguir e nem aonde queria chegar, mas, mesmo assim, atirei-me ao desafio que o destino havia escolhido, com a vontade férrea, que é comum aos seres determinados.
Ao primeiro balanço da folha, dei um leve rodopio no ar e já pude divisar, do alto em que me encontrava, um cenário antes nunca imaginado.
Pude observar, com os olhos de um menino curioso, os contornos de uma Cuesta extraordinária. À medida que eu viajava, pude ver a união exuberante da natureza. Eram árvores frondosas, médias, miúdas, todas em perfeita harmonia. Eram flores grandes e pequenas, frutos bonitos e outros nem tanto, mas o conjunto dessas diferenças, mostrava um resultado indescritível, uma aquarela divina, que jamais um ser humano conseguiu registrar numa tela ou num escrito.
E fui caindo.
E fui descendo.





Quanto mais ia me aproximando das copas das árvores, pude ir distinguindo as peculiaridades de cada uma. Era o amarelo puro de um Ipê, o rosado de umaPaineira, o verde claro de um Pau-de-Santo, as rugas de um Barbatimão, as folhas enfileiradas de um Cedro, o tronco tortuoso e comprido da Bracatinga, as bolinhas doCinamomo, o amarelo do Bambú Canário, os espinhos da Mamica de Porca, o brilho das folhas miúdas do Sangue Negro, as vagens do Ingazeiro, as folhas de sobre tom da fruteira de Lobo, a cor branca dos frutos do Salta Martim.
Nesse meu vôo livre, pude perceber, que por entre todo esse emaranhado de árvores e de vegetação rasteira, outro tipo de vida existia. Eram Preás em atividades incessantes, Pacas num contínuo remoer, Veados em bandos, Tamanduás escarafunchando cupinzeiros, Cachorros do Mato em matilhas, gatos do mato ariscos no ambiente,Capivaras no tijuco, Sanhaços nos pés de amora, Sabiás, coleira, laranjeira e Póca nos pés de Guabiroba, Almas de Gato com ares de sonhadores, Jandaias arrelientas,Siriemas correndo atrás de pequenos insetos, e pude ouvir o zumbido do frenético vai e vem das abelhas e sentir o aroma do mel que produziam.
E fui descendo em queda livre até que toquei numa folha de amendoizeiro e escorri pelo seu tronco. Dali, precipitei-me novamente no vazio.
Agora minha viagem já se fazia mais rápida.
Fui girando.
Fui dando voltas e mais voltas.
Sabia que estava bem mais próximo a ter contato com uma nova realidade antes nunca experimentada.
E cheguei.
Bati numa rocha de cor escura e pelas suas fendas fui deixando parte de mim.
Deslizei rápido, mas não tão rápido que me impedisse de observar a realidade que se mostrava.
Passei por grotas maravilhosas e encantadoras, que, se vistas por poetas ou escritores, com certeza se tornariam o centro de uma obra prima.
Despenquei de uma pedra lisa para a imensidão, não sei precisar quanto tempo fiquei no ar, mas foi o suficiente para ver que por um pequeno vão da mata, um grupo de pessoas caminhava. Consegui observar que não eram mais que três figuras e não estavam sós.
Junto à eles, cinco animais caminhavam. Eram burros carregados com tralhas, pelo que pude perceber, bem pesadas.
Os homens caminhavam lentamente, e de forma ritmada buscavam o acesso mais fácil não tocando nas vegetações à volta. Verifiquei que respeitavam-se mutuamente, a natureza permitia a passagem deles e eles, em contrapartida, não a agrediam.
Sei que não é possível, mas senti lágrimas correrem de mim, um casamento perfeito.
De repente, deixei de ver os homens e pude sentir que estava entrando em contato com outros iguais.
Entrei num turbilhão de irmãos.
Todos unidos, presos a um só rumo.
Segui, não me opus.
Com essa união me senti mais forte e mais rápido, a cada momento sentia encantamento diferenciado. Em determinado momento estava no centro de um redemoinho, em outro fazia parte de uma correnteza, em outro nas voltas dos remansos e, num relance, fui sumindo.
E fui me desfazendo.
Fui me sentindo mais leve.
Alcei vôo por entre as árvores em forma de neblina e fui alcançando suas copas.
E fui caminhando.
Num relance, senti que estava vendo a folha da Embaúba que me recolhera.
Fui-me distanciando.
Subi.
Viajei.
E como viajei.
Não sei quanto tempo girei pelos ares e por onde, só sei que divisei mundos diferentes, mundos verdes, secos, floridos, frios, agradáveis e indiferentes.
Não sei se foi por cusa do meu nascimento, mas nunca deixei de pensar na minha folha de Embaúba e da Cuesta de minha infância. Nunca achei outra vista tão bela quanto àquela da primeira experiência.
Num momento, que para mim foi mágico, fui me formando como no início.
Senti que tomava corpo.
Senti que os meus pedaços estavam se unindo novamente.
Em meio a fortes barulhos e clarões pude ir distinguindo meus novos rumos.
Foi rápido.
Desci felozmente num redemoinho e parei sobre uma superfície lisa. Quando abri os olhos novamente, vi que me encontrava numa folha de embaúba, no cimo da Cuesta.
Fiquei radiante de alegria.
Até que enfim estava de volta ao lugar que mais me agradava.
Aguardei ansioso para a viagem que por certo iria fazer.
Fiquei por um bom tempo repousando na minha folha mãe, sentindo a ternura e a carícia do amor materno.
Enfim o momento tão aguardado chegou.
Soltei-me com o maior prazer no devido momento, agora iria rever o meu cenário de sonho. Eu queria ver minha natureza estampada na retina dos meus olhos.
Onde, onde se escondera a minha infância?
Não conseguia mais ver muitas das árvores, irmãs de nascimento.
Aonde estavam os Sangues de Negro, as Paineiras, os Gravatás, os Ingazeiros?
Aonde estavam?
E os Sanhaços, os Bem-te-vis?
Cadê as Codornas, as Perdizes, cadê?
Muito pouco pude encontrar em meu retorno, e o que encontrei, estava todo escondido, camuflado, amedrontado.
Procurei pelas flores, pelos frutos e nada. O muito pouco é o nada para mim. Vestígios, nada mais que vestígios.
Dos homens, que observei respeitando o meu mundo, nem os rastros. Agora, percebi cicatrizes imensas encravadas na carne de minha Cuesta. Pude sentir o cheiro acre da poluição que as máquinas deixam ao subir pelas costas desse corpo sagrado.
As comitivas se tornaram predadoras.
Minha Cuesta foi rasgada.
Tiraram dos meus olhos a beleza da minha infância e, em seu lugar, nada puseram.
Desta vez foi rápido.
Não consegui caminhar devagar, não tinha onde me segurar, desci velozmente.
Minha Cuesta, sou um pequeno pingo d’água que perdeu seu brilho porque você foi violentada, foi açoitada e não consegue mais mostrar sua beleza natural.
Minha Cuesta, você foi rasgada e não consegue mais viver feliz. Eu também não consigo mais viver, não consigo mais completar meu ciclo natural de vida.
Tudo mudou.
Os meus irmãos não podem ser normais, eles vivem se alternando, mudando suas trajetórias.
E assim ocorreram as inundações, surgiram os estios infernais, e minha Cuesta nunca mais foi igual.
Estou em peregrinação constante pelos céus, atento a tudo que acontece na terra. No dia em que minha Cuesta receber o curativo, para fechar a sua ferida, volto à minha folha mãe, da Embaúba, e começo minha vida de pingo d’água, feliz, brilhante, e sei que, meus irmãos, generosos como são, se unirão a mim e assim retornarão as estações normais na Cuesta.
Eu fui um pingo d’água e hoje sou vapor, mas posso retornar se você trabalhar para reunir meus pedaços.
As feridas podem ser curadas e para isso necessitam de muito amor e carinho. Sei que cicatrizes ficam, serão restos de uma história infeliz, da ação de ignorância violenta.
Espero que, em minha próxima viagem, possa descer tranqüilamente em minha folha mãe, e nunca tenha que atravessar um buraco de telhado para repousar, sobre a tela de quadro de Museu, que tenta retratar uma folha de Embaúba...extinta.
S. O .S.
S. O .S.....Cuesta