julho 03, 2011

Conde Francisco Matarazzo: O Empreendedor do Século XX

Após o último texto sobre os “Oriundi Empreendedores na Saúde”, recebemos vários pedidos para focalizar a trajetória do Conde Francisco (Francesco) Matarazzo – O Fundador do Império Industrial. Já tínhamos dado destaque a ele na revista cultural Peabiru.



Transformações profundas mudavam o perfil da sociedade nos campos da literatura, da arte e da música: desde a revolucionária Semana de Arte Moderna de 1922 até a nova música que surgia carregada de folclore e brasilidade na maestria criativa de Heitor Villa Lobos...

Ao mesmo tempo que a crise de 1929/30 abalava, de forma definitiva, as estruturas econômicas e sociais da sociedade brasileira, havia algo de novo, havia esperança: era a crescente industrialização paulista! O grande fluxo migratório trazido em sua grande maioria para a cafeicultura, passou a dar nova característica à sociedade paulista: muitos vieram tentar uma nova vida, ou como dizem, para “fazer a América!”


A crescente industrialização abrangeu muitos setores, mas para que o cenário mágico da realidade paulista, em 1934, possa ser bem compreendido e avaliado vamos focar, como exemplo, as industrias Matarazzo, que ocupavam indiscutível liderança nesse importante segmento da economia.

Revista Exame e a História de Matarazzo/ leia aqui

No ano de 1934, o ano do cenário mágico paulista, o Conde Francisco Matarazzo estava comemorando seus 80 anos... “Ottant’anni !” Nessa época, as industrias Matarazzo representavam realmente a maior força econômica do Brasil, depois dos orçamentos da União e do Estado de São Paulo... Não se pode falar em processo de industrialização no país sem que se destaque a presença forte do imigrante italiano Francisco (Francesco) Matarazzo.

O ESTADO MATARAZZO

“Assis Chateaubriand vai chamar, em 1934, esse grupo industrial de “O ESTADO MATARAZZO”, lembrando que São Paulo tinha uma renda bruta de 400 mil contos e o parque industrial Matarazzo uma receita de 350 mil, acima de qualquer outra unidade federativa brasileira...O Conde Matarazzo, financeira e economicamente é o segundo Estado do Brasil...”

“Monteiro Lobato na mesma época, compara-o a Henry Ford: a atuação de ambos no criar foi um permanente “rush” para cima...”

“Miguel Couto, Presidente da Academia Brasileira de Letras: “Aos que buscavam e rebuscavam na sua prosápia o sangue azul que achavam que estava faltando, Napoleão Bonaparte, feito Imperador da França, respondeu desdenhosamente: “Eu sou filho de mim mesmo”. Felizes os que, de menor altura embora, podem dizer com o mesmo orgulho – eu sou filho de mim mesmo... Isto é, sou o exclusivo produto do meu trabalho, do meu descortínio, da minha inteligência. Tal é Francisco Matarazzo”.


HISTÓRICO – Em Castellabate, distante 180 km de Nápoles, nascia Francesco Matarazzo, em 09 de março de 1854. Francesco era filho de um médico e rico proprietário, Costábile e de Mariângela. Seu pai faleceu quando ele tinha 19 anos. Com a depressão econômica que vivia a Itália, foi obrigado a abandonar os estudos para cuidar da família. Aos 27 anos, sabendo das condições favoráveis para os imigrantes no Brasil, imigra. Traz junto uma boa quantidade de queijos e vinhos, além de um reforço em liras italianas.

Queijos e vinhos se perdem quando o navio atraca no Rio de Janeiro, afundados com a embarcação que ligava o navio ao porto. Sem desanimar, parte para São Paulo disposto a multiplicar as suas liras. Contando com a colaboração de outros imigrantes que o precederam, entra firme no comércio, participa de caravanas, conhece outros estados e se estabelece em Sorocaba, então limite das paralelas poderosas da Estrada de Ferro Sorocabana que levava o progresso e o desenvolvimento para o interior inexplorado.

Logo, passou a ter um grande rebanho de suínos. Passou a fazer banha e a comercializá-la, em latas. Importa e vende farinha e monta uma tecelagem para fazer os sacos de farinha... Daí para frente foi num crescente, num multiplicar inacreditável.

Resumindo: em 1934, as Industrias Matarazzo assumiam o seu auge que foi crescente até 1950, quando chegou a possuir 38 mil e setecentos funcionários, com controle acionário majoritário ou expressivo em 365 empresas, possuindo 12 unidades navais, uma Casa Bancária, enfim, um complexo industrial que chegou a ter o terceiro orçamento do Brasil! É indiscutível a grandiosidade do “Império Matarazzo” no processo de industrialização do Estado de São Paulo e, portanto, do Brasil. O interior do estado e todo o Brasil se espelhava na força, ousadia e competência desse empreendedor valoroso.

O interior se industrializa no modelo Matarazzo/ leia aqui


Por duas vezes é convidado para o Senado Italiano. Por fim, indica seu irmão, André Matarazzo que foi eleito para a Câmara Alta Italiana. Com sua “Casa Bancária” representa no Brasil o Banco de Nápoles, liderando a arrecadação para ajuda financeira dos italianos residentes no exterior para envio para a Itália (cerca de 85 mil contos, 50% do déficit nacional). Esse grande e patriótico trabalho levou o Rei Vittorio Emanuelle III a lhe conferir o título nobiliárquico de Conde, em 1917, concedendo-lhe, em 1926, a hereditariedade ao título.

NO ANO MÁGICO DE 1934 - Afora as comemorações pelos oitenta anos, o Conde Matarazzo viveria seguidas vitórias: foi considerado o “Empreendedor do Século”; o sucesso da publicação do livro “Il Conde Matarazzo a ottant’anni”; a conquista do Tri-Campeonato Paulista de Futebol (1932/33/34) pelo Palestra Itália (Palmeiras), clube da Colônia Italiana presidido por Dante e a eleição, com a maior votação do estado, do Deputado Estadual Constituinte, Dante Delmanto. Dante era filho de seu conterrâneo (Castellabate) e amigo, o imigrante italiano Pedro Delmanto, industrial no interior do Estado (Botucatu).

Dante Delmanto no Palestra Itália e no Parlamento Paulista/ leia aqui



O OCASO DO IMPÉRIO – Quem poderia imaginar que o “Império Matarazzo” poderia acabar?!? Quem imaginaria o ocaso?!? É o fim, a pobreza? Não, seguramente, não! A família continuará, por gerações, a viver bem, mas é o ocaso do complexo industrial... Estudos acadêmicos nos mostram que duas empresas seguiram rumos diferentes, ambas empresas familiares: IBM e IRFM. Os donos da IBM abriram o capital social, perderam o controle direto, mas ficaram acionistas da que é hoje uma das maiores empresas do mundo. A IRFM, optou , após a morte do Conde (1937), pela administração familiar. Com o falecimento do sucessor, Conde Matarazzo II (início dos anos 80), com as desavenças entre os filhos pelo controle acionário do grupo, ficou inviabilizada economicamente a empresa... A verdade é que tudo mudou e apenas restou a imagem lendária do menino que naufragou nas costas do Brasil, perdeu uma partida de queijos e vinhos, iniciou a revolução industrial brasileira e virou Conde...

11 comentários:

Delmanto disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Delmanto disse...

Essa lembrança do Império Matarazzo,lembra outras estórias. Na industrialização do Brasil, dois grupos industriais preponderaram: o Grupo Matarazzo e o Grupo Votorantin. Agora, a coincidência: os dois estabelecidos na mesma rua, na então considerada “Manchester Paulista”, que era Sorocaba. Primeiro, Francesco Matarazzo, Francesco Grandino iniciavam, em Sorocaba a construção do Império. Já em Botucatu, para onde foram os trilhos da EFS – Estrada de Ferro Sorocabana, levando o progresso, estava instalado Pedro Delmanto, também imigrante de Castellabate e tinha, como colega e amigo na profissão de comercio de calçados, o imigrante português Antonio Pereira Ignácio. Após alguns anos, já casado, Pereira Ignácio vai para Sorocaba, instalando-se na mesma rua do comércio de Matarazzo e instala seu comércio de caroço de algodão. Em pouco tempo, começaria a construir o império da Votorantim... De Sorocaba, Francisco Matarazzo leva seu império para a Capital paulista: são as IRFM – a maior potência Industrial da América Latina e, ele, o italiano mais rico do mundo.
Com o fim das Industrias Matarazzo, já na terceira geração, o Brasil passa a admirar o, agora, maior Império Industrial Brasileiro: a Votorantim. O Comendador Antonio Pereira Ignácio casa sua filha Helena com o engenheiro José Ermírio de Moraes (pai do empresário Antonio Ermírio de Moraes), que viria a comandar, consolidar e expandir o grupo industrial da Votorantim. É registro Histórico.

Anônimo disse...

O império Matarazzo foi contruído sem que houvesse a “ajuda” de nenhum Palocci e de denhum Zé Direceu. Foi a mobilização poderosa da economia privada paulista que construiu seu caminho e montou uma super estrutura industrial para ninguém botar defeito. O valor absoluto da iniciativa privada na busca dos caminhos e, com coragem, própria dos homens que querem construir o fututro. Hoje, parece história de um passado idealizaddo. Pois não foi não! É história verdadeira de homens de fibra que construíram e dignificaram a nova Pátria. Nada de estrangeirismo! Era o novo país que estava sendo contruido. E foi bem construído, poque nada e ninguém consegue criar barreiras entre classes neste povo mestiço abençoado por Deus! A Matarazzo e a Votorantim servem para mostrar que é possível, sim, construir um sonho e viabilizá-lo dentro da lei e da capacidade de organização da comunidade a que serve. Viva o Empreendedor! Viva o Estado de São Paulo! Viva o Brasil!!!
(ludmila.cunha@yahoo.com.br)

Anônimo disse...

Saiu em todos os jornais da época. Quando a crise de 1930 estourou, com a quebra generalizada das industrias brasileiras, consta que Francesco Matarazzo fora procurado por banqueiros ingleses, do Banco de Londres. É registro nos jornais da época: “Perguntaram-me como iam as minhas industrias. Mal. Respondi-lhes. Então eles me disseram que me queriam por à disposição o crédito necessário, porque, no dizer deles, Matarazzo vale o que assina. Depois que falaram, eu então lhes respondi que muito lhe agradecia o oferecimento, mas que não precisava ainda do crédito ilimitado que me ofereciam. Os ingleses ficaram espantados”. É isso aí. O Grupo Matarazzo passou incólume pela maior crise financeira do século, a grande quebradeira de 1930. Sempre atuando com recursos próprios e ainda ajudando a recuperação da Itália. O Conde Francesco Matarazzo I foi o grande exemplo industrial do século XX. Conseguiu, na verdade, FAZER A AMÉRICA!!! Foi um vencedor. Criou um complexo industrial poderoso que só se acabou com a tradicional má gestão da terceira geração! E foi o grande exemplo para inúmeras industrias que surgiram no interior do Estado de São Paulo e do Brasil. É a prova provada de que fazendo as coisas com competência se obtém o sucesso. É o grande Empreendedor do Século XX! É um exemplo positivo do imigrante valoroso que com persistência, garra e criatividade consegue ser um vencedor. O Conde Francesco Matarazzo é um vencedor! (haroldo-leao@hotmail.com)

Anônimo disse...

Grande Palestra, Grande Palmeiras! Tri-Campeão Paulista (32/33/34).
Foi o único tri-campeonato do verdão! Na bucha! Não tinha pra ninguém!
Vamos voltar ao espírito guerreiro daquela época. O Palmeiras é muito maior do que esses cartolas que estão afundando o time. Não deu com o Muricy, não deu com o Luxemburgo e não está dando com o Felipão. Todos ganhando milhões e nada de contratações. O negócio é ter time competitivo, senão não há técnico que faça milagres. E incutir nos jogadores o amor à camisa e o orgulho de jogar no alvi-verde ou no tricolor verde (verde/branco e vermelho). Vamos chutar o pau da barraca!! Fora Cartolas!!!
(jair.castro66@yahoo.com.br)

requeri disse...

eu era fascinada por aquela casa assentada na esquina da pamplona com a paulista. passava por lá quase todos os dias, era no caminho pra casa da minha mãe, e sonhava em entrar por aqueles portões de ferro, enormes, cujos vãos dos arabescos eram preenchidos por vidros. a família saiu de lá e, na década de 1990, ia ser criada a casa do trabalhador, pela prefeitura. serviria pra preservar o local. maravilha!!! quando ela foi tombada pelo patrimônio histórico, algum engraçadinho da família não gostou - talvez quisesse vender pra faturar uma graninha. foi então promovido um ato de vandalismo: o desorientado tentou implodi-la. mas, como era uma casa bem construída, teimou em permanecer de pé, e ficou danificada em vários pontos. resultado, virou um estacionamento.

é isso.

requeri disse...

entre no link abaixo, quem quiser conhecer os portões da mansão do matarazzo. ele ainda está lá, na esquina da pamplona com a paulista.

http://www.panoramio.com/photo/8161962

pequena história de um estacionamento:

http://www.saopauloantiga.com.br/mansao-matarazzo-o-que-ainda-resta/

é isso.

Anônimo disse...

Prezado Armando,
Agradeço pelo material enviado.
O abraço,
Senador Eduardo Matarazzo Suplicy

Anônimo disse...

Caro Delmanto,

Recebi com muito prazer a matéria que fez sobre Francesco Matarazzo. Realmente um homem que mudou o Brasil e nos deixou um exemplo incomparável. Muitos de seus proncípios nos norteiam até hoje. Seja como infdustrial como também na vida pública.
Gostei demais dos comentários sobre a matéria. Significam que as pessoas sabem separar as coisas.
Te agradeço a atenção
Um forte abraço
Andrea
(Andrea Matarazzo - amatarazzo@sp.gov.br)

Membro Sociedade Ítalo-Brasileira disse...

Um Ilustre representante da cultura Italiana membro dessa família é o Alvaro De Um Salto L.Matarazzo Palmeirense de corpo e alma e importante representante da Cultura Italiana...

Luiz DV de Vries disse...

Nesta época não havia o tal "capitalismo de estado" que quebrou o país ! O poder público precisa entender que precisam parar de tentar ajudar(e atrapalhar) o povo e só fazer o básico . Deixem o resto para a iniciativa privada que é criativa e competente !

Postar um comentário