junho 10, 2015

TEATRO CHAFARIZ, QUIM MARQUES E O CAMINHO DO TEATRO: ÚNICO E MÁGICO!

TEATRO CHAFARIZ, QUIM MARQUES  E O CAMINHO DO TEATRO: ÚNICO E MÁGICO!




A Cia de Teatro Chafariz está comemorando 20 Anos de existência. Estará apresentando  sua programação no Teatro Nelli, de 10 a 13 de Junho. Assim, nada mais oportuno que trazermos o artigo “O CAMINHO DO TEATRO: ÚNICO E MÁGICO”, do botucatuense Quim Marques. É a homenagem do Blog do Delmanto aos 20 anos de existência da Cia de Teatro Chafariz e ao Diretor de Teatro Quim Marques.



Botucatu tem gravado esse nome: Quim Marques!
Professor, Artista Plástico, Diretor da “Cia de Teatro Chafariz” e do Grupo de Teatro Municipal, Quim Marques aceitou participar, como colaborador, da Revista Botucatuense de Cultura – PEABIRU, em seu primeiro número, em janeiro/fevereiro de 1997, com o artigo acima referido. Nele está o histórico do teatro em Botucatu. Em 1997, o Quim Marques estava já no segundo ano como diretor da “Cia de Teatro Chafariz”, além de dirigir o Grupo de Teatro Municipal.



Outro artigo de Quim Marques, “Lavapés: O Meu Rio Primeiro”, também publicado na revista PEABIRU, foi destaque neste blog: http://blogdodelmanto.blogspot.com.br/2014/04/lavapes-meu-rio-primeiro-quim-marques.html


O CAMINHO DO
TEATRO: ÚNICO E
MÁGICO.



Outro dia. sentei-me no banco da Praça Paratodos, para contemplar a vida. como se fazia há muito tempo atrás , quando a televisão ainda não roubara as pessoas de suas cadeiras instaladas nas calçadas de suas cidades, para entender o movimento vivo do mundo.
Como não podia deixar de ser, o pensamento foi puxando pela memória e esta, como um fio, veio trazendo as lembranças. Fixei o olhar antigo em nosso Teatro Municipal recém-inaugurado e recordei os primeiros chamados que me conduziram a um caminho único e mágico, de onde jamais se pode voltar. O caminho do teatro.
E me vi menino, ansioso, cruzando o limiar das portas iluminadas dos circos que se instalavam na Rua Rangel Pestana, onde hoje funciona o Mercado Municipal. As tabuletas anunciavam grandes dramas e ingênuas comédias : "O céu uniu dois corações", "O Conde de Monte Cristo", ''Os Irmãos Corsos", "Maria Caxuxa", "Cala a boca, Etelvina". etc...
Após a primeira parte das apresentações que eram as variedades, o mestre-de-cerimônias anunciava o espetáculo da noite, e nós, espectadores, ávidos do encantamento que se prenunciava, nos atropelávamos com nossas cadeiras par, rapidamente, nos instalarmos dentro do picadeiro, buscando o melhor lugar junto ao palco, para assistirmos às encenações. Após as três célebres marteladas sobre a madeira do palco, ficávamos no mais puro silêncio para poder fluir toda a beleza ingênua, popular e brasileira que se apresentava ali. Como sempre, um telão pintado ao fundo, e, completando o cenário, alguns objetos assinalados pelas múltiplas viagens e abençoados pelo pó de todas os caminhos.
Luzes na ribalta e a casinha do ponto, onde uma pessoa soprava aos atores suas falas, para que não perdessem o fio de seus enredos. Tudo tão ingênuo e tão mágico! Corações de papelão enfeitados de flores de papel crepom desciam do alto para enlaçar os casais enamorados, pais cruéis, donzelas traídas, lágrimas, heróis, vilões redimidos, sofrimentos superados pela nobreza da alma iam formando o caráter das pessoas e um estilo que marcou época.
Hoje, muitos diretores teatrais fazem uma releitura desse gênero, como por exemplo, Gabriel Vilela e seu grupo "Galpão". O meu aprendizado foi o de entender a alma viajante desses artistas, sua ternura e generosidade, na entrega ao seu oficio. Mambembes e pobres, buscavam transcender-se pelo brilho da alma. Foi sua poesia e sua garra, seu sonho e sua liberdade que os faziam caminhar sempre. Lição maior de minha vida.
Muitas companhias teatrais, com essa essência passaram por nossa cidade, nas décadas de quarenta e cinqüenta. Lembro-me do Teatro de Alumínio, instalado na Praça do Bosque, onde funcionou o Teatro Espéria, antes do seu incêndio. O Teatro de Alumínio era dirigido e coordenado por Nino Mello, conhecido ator e diretor da época. Suas peças tinham, também, a mesma ótica das representadas nos circos. Quando terminavam os espetáculos, os atores circulavam pela platéia vendendo suas fotos aos espectadores, que as compravam como lembrança e gratidão pelo momento de arte que lhes fora oferecido. Linda cumplicidade!
Mais tarde, quando mais moço, cursando o ginásio, comecei a frequentar a casa do Sr.Nelli e de sua esposa, dona Alice, que haviam formado um grupo de teatro amador. Eles traziam o sonho de construir um teatro. E realmente o conseguiram, mais tarde.
O grupo TAENCA, como era chamado, foi formado inicialmente por alunos da Escola Normal.
Lembro-me de como ficava fascinado, quando passava pela Rua Amando de Barros e via os painéis de anúncio do repertório que apresentavam. Lá estavam expostas as fotos dos atores "botucatuenses mesmo", em pose, à moda dos grandes astros da época.
Já sonhava estar no palco. Via-me ocupando um espaço daquele painel, me apresentado como um personagem ''importante'' de alguma montagem. Mas, na verdade, era muito mais do que isso. Era entrar para além da porta limiar do circo.
Deixar de ser espectador e fazer parte de um elenco, o que dá a permissão de colocar o pé neste caminho.
Conheci e convivi com o Sr.Nelli, esse batalhador das artes de Botucatu, e com ele aprendi que é importante acreditar nas propostas que se pretende realizar. Sua vontade e determinação me impressionaram muito. Seus ensaios eram feitos de forma acadêmica, sem as oficinas, laboratórios e aquecimento que se fazem nas montagens atuais. Decorava-se os papéis e íamos direto para as marcações. Mas havia bastante rigor e disciplina, seriedade no trabalho, elementos importantes para o fazer artístico.
Mais tarde, no começo da década de sessenta, mudou-se para Botucatu o Dr. Otávio Moralles Moreno, com uma certa experiência no profissionalismo teatral de São Paulo. Formou um outro grupo, do qual fiz parte, e nos ensinou novas formas de representar, indicando-nos novas linguagens, novas soluções.
A Secretaria de Cultura Estadual começou, nessa época, a promover concursos de teatro amador, e no primeiro certame. Luzia Carmello Ferraz, que depois tornou-se atriz profissional, ganhou o prêmio de melhor atriz em 1963.
Pela cidade, começaram a surgir outros grupos, fomentando ainda mais a atividade cultural de teatro em Botucatu. Surgiu um grupo da Faculdade de Filosofia. Ciências e Letras, dirigido pelo professor Cury, do qual participavam a professora Maria Lúcia Dal Farra e sua irmã Maria Silvia, o Dr. Marcos Garita, as irmãs Caminhoto, Marlene e Cida. Formou-se ainda nesta década o grupo do hoje famoso dramaturgo Alcides Nogueira, do qual fez parte também a profa.Marly Bonomi, hoje diretora teatral e mestra em Teatro pela USP.
Em 1964, ano da revolução, decidi-me. Fui para São Paulo. Queria ser ator. Queria entender esta arte e sobretudo fazê-la. Por lá fiquei 27 anos. Fiz escola, atuei. Tomei-me profissional. Senti todas as alegrias e dificuldades que o palco traz. Em 1975, casei-me e tive filhos. Afastei-me do teatro profissional e passei a dedicar-me ao teatro-educação. Tornei-me professor. Descobri então outras maravilhas. Através de meus alunos, retomei meu lugar de espectador. Mas, com outro olhar. Com eles, foi-me dado observar e perceber como o teatro nasce dentro do homem, e como num determinado momento se toma tão necessário a ponto de ser eleito como profissão de fé em uma vida. Entender a sua gênese ampliou-me mais ainda a visão de seu misterioso universo. Foi-me dado, nesse exercício, o presenciar de momentos milagrosos: como um ator fazendo seu primeiro vôo, abrindo sua primeira porta, descobrindo sua maneira de derramar-se em gestos dadivosos para revelar as verdades humanas no ritual pungente que sempre é uma encenação. Foi-me dado a possibilidade de encontrar os meios e as chaves que auxiliam esses seres-atores a se encontrarem. Foi-me dado ver esse começo para entender o fim, que é a busca tão intensa e intrigante desta arte, que é a de representar.
Até que um dia voltei. Feliz, constatei que em minha terra havia uma efervescência das artes cênicas. Isto em 1991. Soube que os universitários que aqui chegavam, participavam bastante dessas iniciativas, que muitos outros grupos também vinham se exercitando, nestes vinte e sete anos que estive fora e que, ainda neste período, por aqui passaram companhias famosas, vivificando ainda mais a vida cultural da cidade.
Soube ainda que muitos lutaram por espaços, não só os físicos, mas o de serem aceitos e vistos na dignidade de seu trabalho.
Nestes últimos quatro anos, não sei se por força das marés ou sei lá o quê, os grupos foram se dissipando. Foi um momento triste, mas que acontece sempre, nos movimentos da vida.
E agora, sentado aqui, em frente ao Teatro Municipal, revejo o dia da sua inauguração e ele, festivo, recebendo um mar de gente, gente da Praça Paratodos e todas as praças, artistas desta praça e de todas as praças, num espaço que deve pulsar para todos. E, sejam quais forem as marés, que sejam sempre as do sentimento da comunhão, que acompanha a Arte. Sempre.

REGISTRO HISTÓRICO :

"TAENCA - A 10 de março de 1951, no salão nobre do Instituto de Educação Cardoso de Almeida, foi constituído o Teatro Amador daquela escola. O diretor Adolfo Pinheiro Machado deu apoio total ao teatrólogo (bancário de profissão) Armando Joel Nelli na organização e elaboração do programa de trabalhos. Juntaram-se a eles , na primeira diretoria, Sebastião Almeida Pinto, Agostinho Minicucci, Enedina Faro Pinheiro Machado, Euclides Vulcano, Jair Conti, Romeu Amaral. Na parte artístico-técnica, Armando Joel Nelli e sua esposa Alice Morais Nelli.
A peça "Saudade'', de Paulo Magalhães, levado ao palco do Teatro Casino a 14.5.1951, marcou o início das atividades do TAENCA . Participaram : Terezinha Alvira Joel Nelli, Catarina Fogar, Dolores Surano Dearo, Joana Celina Morais Nelli, Tasso Nunes da Silva, Carlos Bauer e Rui Soares. Pela primeira vez. na história da cidade, a bilheteria de um teatro fechou antes do início da representação, vendidas que foram as 1.200 poltronas..."
"Teatro Nelli. O entusiasmo do casal Nelli e companheiros de diretoria, a boa fase que proporcionava intimidade entre público e a atividade coroou de sucesso a campanha do Nelli para a construção daquele que viria a ser o grande teatro faltante em Botucatu : o municipal. O povo contribuiu adquirindo "cadeiras cativas'', apoiando representações. O governo ajudou de modo que no lançamento da pedra fundamental, 1° de setembro de 1962, esteve presente o presidente da Caixa Econômica do Estado e representante do governador, Teófilo Ribeiro de Andrade. A Prefeitura cedeu - sob críticas de meios conservadores - parte da praça X V de novembro que assim desapareceu dividida entre prédios dos Correios, do Centro Cultural, do Teatro.
O afastamento do animador que foi Armando Joel Nelli, transferido para outra cidade, não foi benéfico à atividade. Mesmo o Teatro que recebeu o seu nome, a 29 de janeiro de 1964 foi transformado em cinema, incorporado à rede da Empresa Teatral Pedutti. O prédio, que merecera elogios de profissionais do teatro, ainda sediou, em outubro desse ano, o II Festival Amador do Estado, que reuniu representações de 28 cidades. Um marco para o teatro botucatuense cujo esboço de história vimos seguindo..."
( Hernâni Donato, in 'ACHEGAS PARA A HISTÓRIA DE BOTUCATU', págs. 223/224. 3a. edição, 1985)

NOTA DO BLOG: hoje, o Cine Nelli, voltou à posse do Poder Público Municipal. Por decisão judicial, a Prefeitura de Botucatu assumiu a posse do teatro e deverá destiná-lo às atividades culturais, notadamente, à atividade teatral. A prefeitura havia doado a área para o TAENCA construir o teatro. Com a dissolução do TAENCA, a prefeitura recebeu o imóvel incorporando-o ao seu patrimônio.

Teatro Municipal "Camillo Fernandez Dinucci" -
"Há quase sessenta anos era inaugurado o primeiro prédio construído no interior do Estado de São Paulo - Cine Paratodos, especificamente destinado a projeção cinematográfica, com 1200 lugares.
As obras foram iniciadas em 1934, tendo sido inaugurado no dia 02 de julho de 1937, com o filme "A carga da Brigada Ligeira". O Cine Paratodos, foi idealizado pelo arquiteto Adolfo Dinucci e projetado pelo seu filho também arquiteto Camillo Fernandez Dinucci, com a fachada e detalhes retilíneos, buscando soluções funcionais proposta pela escola de Bauhaus. Hoje, 04 de Julho de 1996, o Paratodos reabre as suas portas. Tratado com carinho e dignidade pelo Governo Federal, através do Ministério das Comunicações (TELESP) e Poder Público Municipal, resgata a história de Botucatu e devolve à população um lugar que foi ponto de encontro durante décadas.
Conservada a fachada original, internamente foi totalmente reformado e restaurado para teatro com projetos de acústica, iluminação e vestimenta de palco. O antigo Cine Paratodos é apresentado hoje como o Teatro Municipal Camillo Fernandez Dinucci, colocando Botucatu no circuito de cultura nacional."
(Folheto promocional editado pela Prefeitura Municipal de Botucatu, através de sua Divisão de Cultura - julho/ 96).


Duas fotos com Quim Marques, durante a Noite de Autógrafos no lançamento do livro "MEMÓRIAS DE BOTUCATU 2", em 1993. 


Maitan, Quim e Armando.





6 comentários:

Delmanto disse...

O Quim Marques além de ser formado em Teatro pela USP, ser professor e ator ele é, também, ARTISTA PLÁSTICO!
Em 1966, procurei por ele em São Paulo para pintar um quadro de minha mãe. Era uma foto de seu casamento e o Quim fez um belo quadro a óleo que ilustra o post que fiz a ela: “Minha Mãe: Saudades!”
Assim deixo o testemunho da genialidade desse botucatuense criativo e competente, enfim, um artista
http://blogdodelmanto.blogspot.com.br/2013/05/minha-mae-saudades.html

Anônimo disse...

Boa Noite Armando, gostaria de convida-lo ao evento Nas Aguas do Chafariz, mostra de teatro com exposição de figurinos e fotos. Nos dias 10,11,12 e 13 de junho/2015, a partir das 19:30, e apresentaçãoes as 20:30h. em comemoração aos 20 anos da Cia de Teatro Chafariz.- Augusto Albano

Anônimo disse...

Prezado Amigo Delmanto.

Saudações.

Parabéns pelo artigo. Veja a possibilidade de que a nossa ABL possa prestar uma homenagem ao QUIM MARQUES através de uma outorga de reconhecimento em razão da sua profissão e suas atividades conforme exposição feita no seu artigo. Caso esteja de acordo, poderemos agendar para o segundo semestre deste ano de 2015, através de uma reunião previamente elaborada. Aguardo retorno. Bom final de semana.

Abraços cordiais,

Newton Colenci.

Anônimo disse...

Armando, feliz menção ao Quim Marques, para mim, além de tudo o que foi dito, Professor Quim. Quero apenas relatar mais uma das grandes qualidades desse botucatuense. Conheci-o, como professor na Escola de Aplicação da FEUSP, quando a direção estava a cargo de D. Ondina. Dois grandes apaixonados pelo que faziam, o Professor Quim idealizando e dona Ondina apoiando-o. Graças a eles houve grandes transformações. O professor sempre descobria os talentos e incentivava os alunos a se apresentarem, mas a sala destinada ao teatro nada mais era do que um depósito de móveis em desuso e outros entulhos. Com muito trabalho de ambos, com ajuda pouca da Faculdade, mas grande da Associação de Pais e Mestres, conseguiram reformar, mobiliar e equipar o teatro. Com o teatro pronto, começaram as apresentações dos alunos: danças, cantos, jograis, peças teatrais dirigidas pelo professor, etc. Além disso, graças ao professor e à direção, começaram as chamadas Semanas Culturais, marcantes para mim, pois ficava com os meus filhos na escola, durante todo o evento (de sexta-feira à noite até domingo à tarde). Vivenciamos grandes apresentações como o CoralUSP regido pelo maestro Benito Juarez, palestra memorável do Nathan Schuartzman, que empolgou a platéia infantil, expondo enfaticamente a vida e alma do violino. Junto a esses expoentes, mesclava-se o trabalho dos talentos descobertos pelo professor Quim e também a premiação dos alunos vencedores dos concursos literários (prosa e verso), dentro da faixa etária. O Professor Quim, na Escola de Aplicação era o ídolo da garotada, hoje quarentona.

Armando, continue premiando-nos com o seu trabalho. Abraços, Valdivia Barbosa Garcia Guimarães.

Fernando Santoro disse...

É com muita honra que deixo meu saudoso abraço ao Quim, que eu sempre escrevi Kim.
Fui aluno dele na Escola de Aplicação da Faculdade de Educação da USP, em 77 e 78.
Além de competente, carismático, ensinou lições de arte para a vida, naquelas aulas para crianças de 11 anos, a intenção não era formar Picassos, mas, futuros cidadãos de bem.
Agradeço ao "Kim", por tudo e tenho certeza que posso fazê-lo em nome de todos os companheiros da Escolinha da USP, que hoje estão cinquentões.
Aliás este post veio de um ex-aluno, que passou para um grupo enorme de ex-alunos que se comunicam até hoje há quase 40 anos.

Bió disse...

Muita alegria em ver aqui homenageado o meu professor mais querido, aquele com quem mais aprendi na alma. Quim, querido, por sua causa muitos somos hoje o que somos e saímos em busca da flor amarela no peito da porta azul!
Gratidão, de todo o meu coração!

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