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julho 07, 2017

9 DE JULHO E A GRANDE VITÓRIA PAULISTA!!!



1934

Vitória Paulista!!!


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A vitória da Revolução Constitucionalista de 1932 só aconteceu em 1933/34, com a nomeação de um civil e revolucionário para o Governo Paulista e a realização da CONSTITUINTE!!

“Quero que compreendam a extensão e o significado deste ato, pois, com este decreto, entrego o governo de São Paulo aos revolucionários de 32”. (Getúlio Vargas)





Os paulistas queriam a CONSTITUIÇÃO e a AUTONOMIA DOS ESTADOS e, na luta pela volta do país ao Estado de Direito, na luta cívica de 1932, queriam a convocação da Assembléia NacionalConstituinte. Esse foi o compromisso claro na mobilização para o Movimento de 1930, descumprido pelo Governo Provisório e que levou São Paulo a pegar em armas em 1932: a volta ao Estado de Direito e a convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte para a elaboração de uma Constituição Democrática.

Foi o maior movimento cívico vivido pelo povo brasileiro.

Apesar do movimento revolucionário de 1930 ter recebido amplo apoio das forças e lideranças políticas paulistas, os seus objetivos foram fraudados pelo caudilhismo, representado por Getúlio Vargas. Uma vez instalado no Poder, Vargas passou a governar fora do Estado de Direito, violando as mais elementares regras democráticas.

O Congresso Nacional, as Assembléias Estaduais e as Câmaras Municipais foram fechadas, todos os Governadores dos Estados (Presidentes) foram depostos e a Constituição de 1891 (preparada porRui Barbosa) foi revogada. O caudilho Vargas passou a governar o Brasil através de Decretos-Leis (1930/32).

São Paulo assumiu a liderança de exigir o retorno do país ao pleno Estado de Direito. A insatisfação grassava por toda parte e a permanência, que não era provisória, dos governantes federais no poder era a negativa do ideário pregado para o sucesso do movimento de 30.

De início, com o apoio de vários Estados da Federação, principalmente do Rio Grande do Sul e Minas Gerais, sendo certo que os gaúchos tiveram papel significativo no incentivar, mobilizar e apoiar a tomada de posição dos paulistas. No entanto, o grande poder decooptação do Poder Central conseguiu isolar São Paulo. Sozinhos, os paulistas levantaram a Bandeira da Constituição.

A Revolução Constitucionalista objetivava, tão somente,autonomia administrativa, eleições e Constituição, ou seja, a volta do país ao pleno Estado de Direito. E, a partir daí, realizar a tarefa de modernizar o país, erradicar as injustiças e os erros que um regime político em descompasso com a evolução da humanidade não havia conseguido captar na Primeira República. Nada de separatismo como apregoavam os asseclas do Ditador...

A mobilização foi unânime! As diferenças político-partidárias ficaram para traz. São Paulo soube compreender o momento cívico que estava vivendo e soube levantar, bem alto, a Bandeira da Legalidade!



E o coração de São Paulo havia sangrado no final de maio/32 quando, numa manifestação da população paulistana com a presença de muitos estudantes de direito, pela autonomia de São Paulo e a favor da Constituinte, houve violenta repressão policial. Da ação violenta contra a população, quatro estudantes paulistas foram assassinados: Euclides Miragaia, Mário Martins de Almeida, Dráusio Marcondes de Sousa e Antônio Camargo de Andrade. As siglas dos nomes dos mártires (Miragaia, Martins, Dráusio e Camargo) deram origem ao MMDC, entidade que passou a representar a “alma dos paulistas” na luta que se iniciou a 9 de julho de 1932 contra um Governo Provisório (e que nada tinha de provisório) que não respeitava a autonomia de São Paulo e nem o Estado Democrático de Direito.

A participação da intelligentzia paulista na mobilização da população foi fundamental. A nossa intelectualidade tomou posição firme, quer através do trabalho da pena, quer pela força da palavra, assumindo com a clareza de suas ideias a imprensa, a tribuna parlamentar, os pronunciamentos nos comícios e nos microfones radiofônicos. Resumindo: a mobilização cívica da população!

Todos sabem o desfecho dessa que foi a mais importante ruptura da unidade nacional: a guerra civil de 32, levando irmãos ao mais grave enfrentamento. Os gaúchos – salvo algumas lideranças democráticas que mantiveram a palavra de incentivo e apoio irrestrito – abandonaram os paulistas. O mesmo ocorreu com os mineiros e com as forças militares da capital federal. São Paulo ficou sozinho na batalha para poder gerir a si próprio e  pelas eleições e pela Constituição Democrática.

São Paulo não ganhou a guerra civil, desproporcional sob todos os aspectos, mas saiu vitoriosa, indiscutivelmente, saiu vitoriosa: o Ditador Getúlio Vargas teve, essa é a verdade, teve que convocar as Eleições Constituintes !

 Haviam conseguido “brecar” São Paulo pelas armas, mas o povobrasileiro já havia sido “contaminado” pelo patriotismo e pelo desejo de ver o Estado de Direito reimplantado no país! Os ideais constitucionalistas da Revolução de 32 fincaram profundas raízes no sentimento patriótico do povo brasileiro.

O Ditador Vargas não teve outra opção se não a convocação daAssembléia Nacional Constituinte. A nível nacional e nos Estados, foram eleitos os Deputados Constituintes com a missão de elaborar aConstituição de cada unidade federativa.  E na Nova Constituição, oVOTO SECRETO e o VOTO FEMININO foram consagrados!

Com o objetivo de resgatar a atuação valorosa dos paulistas é que fizemos esta interpretação histórica da epopéia cívica de 1932. Esse o cenário real em que se desenvolveu a luta armada e é a mais bela página do exercício da cidadania pelo povo paulista.

A Assembléia Nacional Constituinte

Getúlio Vargas, por Decreto, regulamenta o funcionamento daAssembléia Nacional Constituinte. Com a vitória militar, Vargas se sentia forte o suficiente para amenizar o clima e o espírito constitucionalista que a Revolução Constitucionalista de 32 criara em todo o pais. Assim, através de Decreto Lei, dispunha as atribuições da ANC e, entre muitas, a que deveria eleger o Presidente da República.

Pelos paulistas conseguiu-se o que parecia impossível: a união de suas forças políticas: o PD – Partido Democrático e o PRP – Partido Republicano Paulista, com o apoio da Federação de Voluntários (dos ex-combatentes de 32) e da Associação Comercial de São Paulo,fizeram a “Chapa Única por São Paulo Unido”. Foram mantidas as estruturas partidárias independentes.

As eleições para a Constituinte, foram realizadas no dia 03/05/1933. A Chapa Única elegeu 17 dos 22 representantes do Estado. Logo após as eleições, Vargas conseguiu aproximar-se da oposição paulista e fazer a tão desejada aliança.
No dia 21/08/1933, um “civil e paulista”, combatente de 32, toma posse como Interventor Federal em São Paulo: o Engº Armando de Salles Oliveira.

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“Quero que compreendam a extensão e o significado deste ato, pois, com este decreto, entrego o governo de São Paulo aos revolucionários de 32”.

Armando de Salles Oliveira/Registro Histórico/ leia aqui


  Com essas palavras, Getúlio Vargas procurava garantir o seu futuro político. O esperto gaúcho mostrava que não era por acaso que estava no comando do país. Sabia fazer política e tinha visão clara do futuro e da importância de compor e dar, como vitorioso, tratamento adequado aos adversários de ontem...

  No Palácio Tiradentes, no dia 16 de julho de 1934, era oficialmente promulgada a nova Constituição da República. A partir daí, a Assembléia Nacional Constituinte se transforma provisoriamente em Câmara dos Deputados.

  No dia seguinte, 17/07/34, é eleito Getúlio Vargas como Presidente da República do Brasil, com mandato de 4 anos. E no dia 20 de julho, toma oficialmente posse do cargo.

  Finalmente, a 14 de outubro de 1934 são realizadas eleições para a Câmara de Deputados e para as Assembléias Constituintes dos Estados. Além de elaborarem as respectivas Constituições Estaduais, elegeriam os governadores e senadores, transformando-se provisoriamente em assembléias ordinárias.

A esperteza e a capacidade do Ditador Getúlio Vargas em cooptar seus adversários políticos sempre foi reconhecida. E Vargas soube compreender a dimensão da patriótica mobilização paulista: um perigo que poderia contaminar todo o povo brasileiro. Assim, em agosto de 1933, em um gesto próprio de quem tem a inteligência e a sagacidade para ficar discricionariamente 15 anos no poder central (1930/45), estendeu aos paulistas, sem limitações, as reivindicações mais prementes que levaram à deflagração do movimento insurrecional paulista: a autonomia na gestão do governo paulista e a fixação das datas das eleições constituintes.

Armando de Salles Oliveira foi nomeado, em 1933, Interventor Federal até a sua eleição, pelos Deputados Estaduais Constituintes, eleitos em 1934, como Governador do Estado de São Paulo, em abril de 1935. Uma das condições para que Armando Salles aceitasse o convite foi a da concessão de anistia aos revoltosos de 32, que puderam retornar do exílio. Mesmo derrotados na luta armada, os constitucionalistas alcançaram os seus objetivos políticos.

O escritor Hernâni Donato, em seu livro “A Revolução de 32”,edição Círculo do Livro/Livros Abril, 1982, pág.177, destacou a importância dessa escolha:

“Particularmente aos paulistas, que seguiam amargando a  rendição particular, Getúlio quisera fazer provar a 21 de agosto de 1933 o sabor aliciante, desarmante, de alcançar um objetivo obstinadamente perseguido. Nomeou  Armando de Sales Oliveira – civil e paulista – para a interventoria federal em São Paulo. Assinando o decreto, enfatizava: “Quero que compreendam a extensão e o significado deste ato, pois, com este decreto, entrego o governo de São Paulo aos revolucionários de 32”.

“Quero que compreendam a extensão e o significado deste ato, pois, com este decreto, entrego o governo de São Paulo aos revolucionários de 32”.

Jogada de mestre do caudilho gaúcho, mas que representou a possibilidade de reagrupamento da cidadania paulista e a efetiva possibilidade de se provar a capacidade administrativa dos revolucionários constitucionalistas e o indiscutível sentimento de unidade nacional que sempre os motivou.

Fruto da Revolução de 32, a mobilização dos paulistas para as eleições presidenciais de 1937 foi o maior acontecimento político da época. Com as eleições estaduais para a Constituinte Paulista de 1934 e o governo arrojado e inovador de Armando de Salles Oliveira, o Brasil passou a se espelhar e a esperar que o grande democrata paulista levasse para todo o Brasil, as novas e modernas técnicas de bem gerir o serviço público que implantou em São Paulo, além da verdadeira revolução educacional com a criação pioneira da USP – Universidade de São Paulo.

O governador Armando Salles trouxe para a gestão pública a experiência que tivera ao criar, na iniciativa privada, moderna empresa voltada ao treinamento e formação de gestores. Essa sua atuação no setor produtivo repercutiu muito em todo o país, especialmente com a criação bem sucedida do IDORT – Instituto de Desenvolvimento Organizacional do Trabalho. O IDORT preparava lideranças para a boa e eficiente gestão administrativa, além do ensinamento das modernas e eficientes técnicas organizacionais de trabalho. Ao mesmo tempo e também em iniciativa pioneira e revolucionária, Armando Salles investiu maciçamente na educação e implantou as Escolas Profissionais (posteriormente, denominadas Escolas Industriais) na capital e no interior do estado.

Assim, estavam elencados os objetivos imediatos: modernizar o serviço público, investir na educação prioritariamente e implantar novas e produtivas técnicas organizacionais para a otimização da máquina estatal.

O Estado Novo. O Exílio.  A Derrota da Democracia...

Em 1937, Getúlio Vargas dá o Golpe de Estado e implanta o Estado Novo (10/11/1937). A democracia é derrotada. A Constituição de 1934é revogada. As Casas Legislativas (Congresso Nacional, Assembléias Legislativas e Câmaras de Vereadores) são fechadas. Os Governadorese Prefeitos são depostos; são nomeados os Interventores Federais. AsBandeiras dos Estados são queimadas em praça pública pelo Ditador Vargas! O caudilho Vargas passa a governar por Decretos Leis...

Esse filme já foi visto em 1930...

No mesmo dia do golpe, Armando é preso em seu apartamento do Rio de Janeiro. É enviado para Minas Gerais onde fica isolado até maio de38. Em novembro (03/11/1938), segue de navio para a Europa. Era o desterro. Era o exílio que duraria até 07 de abril de 1945, quando regressaria, já muito doente, falecendo em São Paulo (17/05/1945).

Em sua última homenagem, na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, a presença dos amigos e familiares. O caixão é fechado. Carregam o esquife os profs. Jorge Americano, Gabriel Rezende, André Dreyfus, Benedicto Montenegro, Teotônio Monteiro de Barros, Soares de Faria, Fonseca Telles, Pacheco e Silva, Zeferino Vaz e Waldemar Ferreira.  Os discursos do prof. Jorge Americano, Reitor da USP, do prof. André Dreyfus, Diretor da FFCL e do acadêmico Waldir Troncoso Peres, orador do Centro Acadêmico XI de Agosto. No cemitério da Consolação, Otávio Mangabeira proferiu, de improviso, ao baixar o corpo à sepultura, belíssimo e comovente discurso.

março 09, 2016

ALBERTO MORAVIA: o retratista da "alma italiana"


Alberto Moravia de 1934 até os Contos Romanos...


Alberto Moravia (1907/1990) foi o “retratista da Alma” do italiano no século XX. Soube captar toda subjetividade e liberdade que cada um de nós tem para escolher os seus caminhos e os conflitos resultantes dessa escolha... Mostra, sem dúvida, a importância da existência individual.Moravia é considerado um dos pioneiros do EXISTENCIALISMO, mas de uma forma mais intuitiva, diferente de Camus e Sartre, embasados filosoficamente.





Com seus “CONTOS ROMANOS” e “NOVOS CONTOS ROMANOS”, Alberto Moravia conquistou o público italiano e dos principais países ocidentais. Hoje, já é famosa a sua perda do Prêmio Nobel. Sim, já era pacífica a sua escolha, em 1958. Mas o mundo estava dividido pela Guerra Fria, e num trabalho debitado à C.I.A., o grande prêmio dedicado à literatura foi entregue à BORIS PASTERNACK pela obra “DOUTOR JIVAGO”, que fora impresa rapidamente e entregue à Academia Sueca pela famosa agência norte-americana.. Moravia era do PCI – Partido Comunista Italiano, tendo sido eleito para o PARLAMENTO EUROPEU, em 1984 até seu falecimento em1990.

Mas Alberto Moravia imperou nos decênios seguintes com sua prosa envolvente e pelo perfil que traçava de uma sociedade em mutação e excessivamente presa a valores do consumismo exagerado e do formalismo social, sempre hipócrita e superficial.

Grande representante da literatura ocidental, Moravia ficou mais conhecido pelos filmes baseados em seus romances: “O Conformista”, filmado por Bertolucci; “O Desprezo”, filmado por Jean-Luc Godard e "Os Indiferentes", filmado por Vittorio de Sica.

1934






“Acredito que a criação humana é universal”, disse ele numa entrevista. “Qualquer homem possui uma capacidade criadora, nunca desprezível e incessante. A todo o instante se pode encontrar no interior de qualquer homem, por mais insignificante que seja, a sua força criadora. E isso é que é belo.”



O livro “1934” é emblemático e nos mostra que as decisões individuais para solucionar problemas existenciais recebem a influência externa e de outras pessoas e o resultado pode ser exatamente o contrário da intenção inicial. Na foto acima, Moravia e Elsa Morante na Ilha de Capri, nos anos 40.Para que se tenha uma perspectiva desta importante obra, a crítica literária de NEI DUCLÓS, escrita para o “Jornal Opção” precisa ser conhecida e analisada:

Nei Duclós
Especial para o Jornal Opção


“1934” é um romance de Moravia que trata de um leitor compulsivo, escritor obcecado em alguns grandes autores que busca uma saída para o inevitável suicídio. “É possível viver no desespero sem desejar a morte?” é a primeira frase que nos leva para o abismo. Inspirado na obra radical das gravuras e quadros de Albrecht Dürer e no Nietzsche de Zaratustra, ele se divide entre a dor e o prazer, trafegando num fio de navalha a partir de uma ilusão: o namoro com uma bela turista alemã casada. Ele procura dominar o desespero para equilibrar-se na difícil Europa de domínio fascista. Revela a intelectualidade de mãos amarradas e de raciocínio podre, a serviço do imobilismo do gesto e do marca passo das ideias.
O jovem Lucio, o escritor que viaja a Capri para produzir algo que resolva seu paradoxo, entra no jogo de sedução cedendo a um impulso, mas sua intervenção obedece a um intuitivo planejamento. No fundo ele quer amarrar a súbita paixão ao confortável desfecho de sua aventura. Mas é traído pela complexidade da trama. A mulher do seu desejo tem uma outra, idêntica, irmã gêmea que se confunde com ela, apesar das personalidades opostas (o convívio com uma o liberta das amarras com a outra e vice-versa). Isso faz com que o jogo de cabra cega com o gênero oposto vire uma armadilha, intensificada pela presença do marido, um alemão nazista que o obriga a fazer a saudação maldita de braço estendido.
Submeter-se às conveniências para sobreviver é a fonte do desespero, fruto da escravidão. O escritor não pode se manifestar porque a situação política que ultrapassa fronteiras não permite. Em 1934 o ambiente já estava definido a partir da morte e sua celebração, consolidada no Viva La Muerte da futura guerra espanhola naquela década. A criação estava confinada ao oposto de sua natureza. Moravia escreveu sobre esse pesadelo de 1934 só muito mais tarde, na década de 1980. O romance tem tudo de um resgate a partir das ruínas. Criaturas demolidas pela situação insuportável imaginam amar, pensar, gerar um destino diverso do que está sendo imposto. “Acredito que a criação humana é universal”, disse ele numa entrevista. “Qualquer homem possui uma capacidade criadora, nunca desprezível e incessante. A todo o instante se pode encontrar no interior de qualquer homem, por mais insignificante que seja, a sua força criadora. E isso é que é belo.” Mas neste romance a beleza fica sufocada, apesar da maestria do texto, sempre encantadora.
Longe do panfletismo, o rigor de Moravia joga pesado na confluência de intenções contraditórias, nas vontades que se anulam, nas decisões erradas, no imaginário promovido pela iminência da guerra. Tudo é delicado nos detalhes dessas rotinas vulneráveis, em que os bilhetes podem levar a um assassinato, uma leitura consegue destruir carreiras, uma paixão de verão acaba virando um caso sinistro. Em que sombras definem a vontade de sumir e todo esforço bate na barreira de uma realidade intransponível. Estávamos estrepados em 1934 e parece que saímos daquela gruta. Mas ele prepara uma surpresa.”

HISTÓRIAS DA PRÉ-HISTÓRIA


Neste livro, Alberto Moravia reinventa a pré-história e cria algumas dezenas de contos, em diversos sentidos, fabulosos. Num deles, por exemplo, descobrimos a origem das lágrimas de ´Croco Dilo´; em outro, por que o ´Cama Leão´ muda de cor; ou ainda como ´Ba Leia´ deixou de ser um pequeno peixinho e como o unicórnio se transformou em ´Rino Ceronte´. Nesse universo de pernas para o ar, em que a fantasia dita as normas, a ´Pre Guiça´ pode ser chefe do corpo de bombeiros, o ´Can Guru´ quer se comunicar com os homens e estes, bem, estes... desfrutavam sem compromisso das delicias do ´Jardim do Eh Dehn´. Estas histórias, ainda que repletas de animais, não podem ser chamadas simplesmente de fábulas, porque Moravia não quer, como La Fontaine, dar lições de moral. Antimoralista convicto, as fabulas de Moravia são antifábulas ou fábulas pelo avesso. Ao subverter a expectativa e até a lógica das histórias infantis, estas narrativas colocam o leitor (seja ele criança ou adulto) diante de um universo rico e desafiador. O mesmo procedimento esta presente no modo como o autor utiliza os provérbios, ora alterando-lhes o sentido, ora simplesmente mostrando que nem sempre eles correspondem a verdade. As antifábulas de Moravia seguem contra a correnteza, e buscam revelar não como as coisas aconteceram, mas como poderiam ter acontecido...
Uma girafa órfã que acredita ser um leão. Um pinguim professor de geografia que pensa que o gelo é eterno. Uma pulga que desafia um dinossauro a saltar mais do que ela. Uma morsa cujos pensamentos congelam no ar e um javali apaixonado por um peixe.
Era uma vez um tempo antes do tempo, quando tudo ainda estava por fazer e a História, por inventar. Nas 24 divertidas histórias deste livro, o grande escritor italiano Alberto Moravia vira tudo pelo avesso, deixa as fábulas de ponta-cabeça e nos leva a olhar o mundo como ele é, sonhando com aquele que poderia ser.

março 09, 2014

Alberto Moravia de 1934 até os Contos Romanos...


Alberto Moravia de 1934 até os Contos Romanos...


Alberto Moravia (1907/1990) foi o “retratista da Alma” do italiano no século XX. Soube captar toda subjetividade e liberdade que cada um de nós tem para escolher os seus caminhos e os conflitos resultantes dessa escolha... Mostra, sem dúvida, a importância da existência individual. Moravia é considerado um dos pioneiros do EXISTENCIALISMO, mas de uma forma mais intuitiva, diferente de Camus e Sartre, embasados filosoficamente.





Com seus “CONTOS ROMANOS” e “NOVOS CONTOS ROMANOS”, Alberto Moravia conquistou o público italiano e dos principais países ocidentais. Hoje, já é famosa a sua perda do Prêmio Nobel. Sim, já era pacífica a sua escolha, em 1958. Mas o mundo estava dividido pela Guerra Fria, e num trabalho debitado à C.I.A., o grande prêmio dedicado à literatura foi entregue à BORIS PASTERNACK pela obra “DOUTOR JIVAGO”, que fora impresa rapidamente e entregue à Academia Sueca pela famosa agência norte-americana.. Moravia era do PCI – Partido Comunista Italiano, tendo sido eleito para o PARLAMENTO EUROPEU, em 1984 até seu falecimento em 1990.

Mas Alberto Moravia imperou nos decênios seguintes com sua prosa envolvente e pelo perfil que traçava de uma sociedade em mutação e excessivamente presa a valores do consumismo exagerado e do formalismo social, sempre hipócrita e superficial.

Grande representante da literatura ocidental, Moravia ficou mais conhecido pelos filmes baseados em seus romances: “O Conformista”, filmado por Bertolucci; “O Desprezo”, filmado por Jean-Luc Godard e "Os Indiferentes", filmado por Vittorio de Sica.

1934






“Acredito que a criação humana é universal”, disse ele numa entrevista. “Qualquer homem possui uma capacidade criadora, nunca desprezível e incessante. A todo o instante se pode encontrar no interior de qualquer homem, por mais insignificante que seja, a sua força criadora. E isso é que é belo.”



O livro “1934” é emblemático e nos mostra que as decisões individuais para solucionar problemas existenciais recebem a influência externa e de outras pessoas e o resultado pode ser exatamente o contrário da intenção inicial. Na foto acima, Moravia e Elsa Morante na Ilha de Capri, nos anos 40.Para que se tenha uma perspectiva desta importante obra, a crítica literária de NEI DUCLÓS, escrita para o “Jornal Opção” precisa ser conhecida e analisada:

Nei Duclós
Especial para o Jornal Opção


“1934” é um romance de Moravia que trata de um leitor compulsivo, escritor obcecado em alguns grandes autores que busca uma saída para o inevitável suicídio. “É possível viver no desespero sem desejar a morte?” é a primeira frase que nos leva para o abismo. Inspirado na obra radical das gravuras e quadros de Albrecht Dürer e no Nietzsche de Zaratustra, ele se divide entre a dor e o prazer, trafegando num fio de navalha a partir de uma ilusão: o namoro com uma bela turista alemã casada. Ele procura dominar o desespero para equilibrar-se na difícil Europa de domínio fascista. Revela a intelectualidade de mãos amarradas e de raciocínio podre, a serviço do imobilismo do gesto e do marca passo das ideias.
O jovem Lucio, o escritor que viaja a Capri para produzir algo que resolva seu paradoxo, entra no jogo de sedução cedendo a um impulso, mas sua intervenção obedece a um intuitivo planejamento. No fundo ele quer amarrar a súbita paixão ao confortável desfecho de sua aventura. Mas é traído pela complexidade da trama. A mulher do seu desejo tem uma outra, idêntica, irmã gêmea que se confunde com ela, apesar das personalidades opostas (o convívio com uma o liberta das amarras com a outra e vice-versa). Isso faz com que o jogo de cabra cega com o gênero oposto vire uma armadilha, intensificada pela presença do marido, um alemão nazista que o obriga a fazer a saudação maldita de braço estendido.
Submeter-se às conveniências para sobreviver é a fonte do desespero, fruto da escravidão. O escritor não pode se manifestar porque a situação política que ultrapassa fronteiras não permite. Em 1934 o ambiente já estava definido a partir da morte e sua celebração, consolidada no Viva La Muerte da futura guerra espanhola naquela década. A criação estava confinada ao oposto de sua natureza. Moravia escreveu sobre esse pesadelo de 1934 só muito mais tarde, na década de 1980. O romance tem tudo de um resgate a partir das ruínas. Criaturas demolidas pela situação insuportável imaginam amar, pensar, gerar um destino diverso do que está sendo imposto. “Acredito que a criação humana é universal”, disse ele numa entrevista. “Qualquer homem possui uma capacidade criadora, nunca desprezível e incessante. A todo o instante se pode encontrar no interior de qualquer homem, por mais insignificante que seja, a sua força criadora. E isso é que é belo.” Mas neste romance a beleza fica sufocada, apesar da maestria do texto, sempre encantadora.
Longe do panfletismo, o rigor de Moravia joga pesado na confluência de intenções contraditórias, nas vontades que se anulam, nas decisões erradas, no imaginário promovido pela iminência da guerra. Tudo é delicado nos detalhes dessas rotinas vulneráveis, em que os bilhetes podem levar a um assassinato, uma leitura consegue destruir carreiras, uma paixão de verão acaba virando um caso sinistro. Em que sombras definem a vontade de sumir e todo esforço bate na barreira de uma realidade intransponível. Estávamos estrepados em 1934 e parece que saímos daquela gruta. Mas ele prepara uma surpresa.”

HISTÓRIAS DA PRÉ-HISTÓRIA


Neste livro, Alberto Moravia reinventa a pré-história e cria algumas dezenas de contos, em diversos sentidos, fabulosos. Num deles, por exemplo, descobrimos a origem das lágrimas de ´Croco Dilo´; em outro, por que o ´Cama Leão´ muda de cor; ou ainda como ´Ba Leia´ deixou de ser um pequeno peixinho e como o unicórnio se transformou em ´Rino Ceronte´. Nesse universo de pernas para o ar, em que a fantasia dita as normas, a ´Pre Guiça´ pode ser chefe do corpo de bombeiros, o ´Can Guru´ quer se comunicar com os homens e estes, bem, estes... desfrutavam sem compromisso das delicias do ´Jardim do Eh Dehn´. Estas histórias, ainda que repletas de animais, não podem ser chamadas simplesmente de fábulas, porque Moravia não quer, como La Fontaine, dar lições de moral. Antimoralista convicto, as fabulas de Moravia são antifábulas ou fábulas pelo avesso. Ao subverter a expectativa e até a lógica das histórias infantis, estas narrativas colocam o leitor (seja ele criança ou adulto) diante de um universo rico e desafiador. O mesmo procedimento esta presente no modo como o autor utiliza os provérbios, ora alterando-lhes o sentido, ora simplesmente mostrando que nem sempre eles correspondem a verdade. As antifábulas de Moravia seguem contra a correnteza, e buscam revelar não como as coisas aconteceram, mas como poderiam ter acontecido...
Uma girafa órfã que acredita ser um leão. Um pinguim professor de geografia que pensa que o gelo é eterno. Uma pulga que desafia um dinossauro a saltar mais do que ela. Uma morsa cujos pensamentos congelam no ar e um javali apaixonado por um peixe.
Era uma vez um tempo antes do tempo, quando tudo ainda estava por fazer e a História, por inventar. Nas 24 divertidas histórias deste livro, o grande escritor italiano Alberto Moravia vira tudo pelo avesso, deixa as fábulas de ponta-cabeça e nos leva a olhar o mundo como ele é, sonhando com aquele que poderia ser.