O grito das massas e o Poeta do Povo!
A Revolução Cultural ocorrida no Teatro Nacional, na década de 60, teve seu marco no show “OPINIÃO”, deAugusto Boal, Gianfrancesco Guarnieri e Oduvaldo Vianna Filho. E esse espetáculo revelou para o Brasil toda a criatividade musical de João do Vale.
Considerado O POETA DO POVO, esse poeta maranhense soube captar o grito das massas, transformando-o em canções fortes e impactantes.
O compositor e cantor maranhense João Batista do Vale (1933-1996), que representou o grito contido das massas contra todo o tipo de injustiça social, conforme revela a letra de “Carcará”, simbolizando a vida difícil dos sertanejos, comparando-a à ave Carcará, que tem que matar para sobreviver.
Entretanto, o ”Carcará” desta letra tinha também um outro significado, ou seja, era considerado herói, na época, porque simbolizava uma juventude que lutava contra a ditadura militar para defender o povo brasileiro.
Historicamente, em 1964, João do Vale participou do show Opinião, que foi apresentado no teatro do mesmo nome, no Rio de Janeiro, ao lado de Zé Kéti e Nara Leão, tornando-se conhecido principalmente pelo sucesso da música “Carcará”, a mais marcante do espetáculo.
A REVOLUÇÃO NO TEATRO NACIONAL
O teatro brasileiro vem desde os primórdios da colonização portuguesa. Mas só nos anos 50, começa a tomar forma a retratar a sociedade paulista com Jorge de Andradeenquanto Ariano Suassuna inova no teatro regional. Em1948, Alfredo Mesquita funda a Escola de Arte Dramática - EAD, em São Paulo e Maria Clara Machado, em 1950, abre o Tablado, no Rio de Janeiro.
No final da década de 50 e início dos anos 60, a prioridade do então poderoso TBC - Teatro Brasileiro de Comédiapara as peças e autores estrangeiros, leva os autores e atores nacionais a procurarem outro caminho vendo, no teatro, um meio válido para buscar a transformação da sociedade brasileira.
A Revolução Cultural do Teatro Brasileiro, na década de 60, a nosso ver, está marcada pela atuação teatral e política de dois grupos teatrais: o TEATRO DE ARENA, deSão Paulo, sob a direção de Augusto Boal, Gianfrancesco Guarnieri e Oduvaldo Vianna Filho; e o GRUPO OPINIÃO, do Rio de Janeiro, sob a direção dePaulo Pontes , Oduvaldo Vianna Filho, Armando Costa. Na verdade, atuavam em perfeita simbiose.
Em 1965, no Rio de Janeiro aconteceu a apresentação revolucionária do "Show Opinião", com Zé Kéti, João do Vale e Nara Leão. Os autores do espetáculo,Armando Costa, Oduvaldo Vianna Filho e Paulo Pontes deixaram claro que "...é preciso restabelecer o teatro de autoria brasileira - não somente o teatro do dramaturgo brasileiro - o espetáculo do homem do teatro brasileiro. É preciso que finalmente e definitivamente nos curvemos à nossa força e à nossa originalidade".
Com direção geral de Augusto Boal e direção musical deDorival Caymmi Filho, o espetáculo trazia a música de Zé Kéti e João do Vale em cima de ampla pesquisa na autêntica música popular brasileira.
“O espetáculo tem duas intenções principais. Uma é a do espetáculo propriamente dito, Nara, Zé Kéti e João do Vale tem a mesma opinião, quando se alia ao povo na captação de novos sentimentos e valores necessários para aevolução social; quando mantém vivas as tradições de unidade e integração nacionais. A música popular não pode ver o público como simples consumidor de música; ele é fonte e razão da música.
Com esse espírito é que João do Vale – o poeta do povo! - descreve quase sempre uma contradição; a vontade e a força de sua gente, o amor que dedicam à terra e a impossibilidade de usá-la em proveito próprio. O lamento antigo permanece, acrescido de uma extraordinária lucidez” (do histórico do show “Opinião”)
CARCARÁ
Composição: João do Vale/José Cândido
(Glória a Deus Senhor nas altura
E viva eu de amargura
Nas terra do meu senhor)
Carcará
Pega, mata e come
Carcará
Num vai morrer de fome
Carcará
Mais coragem do que homem
Carcará
Pega, mata e come
Carcará
Lá no sertão
É um bicho que avoa que nem avião
É um pássaro malvado
Tem o bico volteado que nem gavião
Carcará
Quando vê roça queimada
Sai voando, cantando,
Carcará
Vai fazer sua caçada
Carcará come inté cobra queimada
Mas quando chega o tempo da invernada
No sertão não tem mais roça queimada
Carcará mesmo assim num passa fome
Os burrego que nasce na baixada
Estribilho
Carcará é malvado, é valentão
É a águia de lá do meu sertão
Os burrego novinho num pode andá
Ele puxa no bico inté matá
Carcará
Pega, mata e come!









