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dezembro 06, 2014

Ah...a rua CURUZU não é mais a mesma...

Ah...a rua Curuzu não é mais a mesma...


Estive, hoje, na rua Curuzu... Definitivamente, a rua Curuzu NÃO é mais a mesma...
Isso nos trouxe a lembrança do belíssimo artigo da saudosa cronista  botucatuense, ELDA MOSCOGLIATO, escrita especialmente para revista PEABIRU, em 1998: “O MICROCOSMO DA CURUZU”.
São 3 os focos que quero abordar: a ABL – Academia Botucatuense de Letras e seu presidente, Antonio Evaldo Klar e os novos Membros Efetivos da ABL.
1-   O Acadêmico Antonio Evaldo Klar – presidente da ABL -, tomou posse na Academia quando eu exercia a presidência. E, esta semana, ele esteve em minha casa (4ª feira), com a Acadêmica Carmem Lúcia, para entregar os documentos dos candidatos a Membros Efetivos. E, hoje, fui até a rua Curuzu, entregar para a confreira Márcia Guedelha Blasi, os mesmo documentos;
2-   Aí entra o porque a CURUZU não é mais a mesma... Chegando na casa, toquei a campanhia algumas vezes. Sem resultado, fui até as casas do lado esquerdo e direito para confirmar o morador que eu buscava. Nada. Eram casas de comércio e não sabiam... Não sabiam o nome do vizinho!
3-   Fui até a esquina do outro lado da rua, na oficina do Roberto, velho conhecido, e perguntei se era lá que morava o Blasi. Ele confirmou e alertou: não é a campanhia que funciona e, sim o interfone que tem na entrada de carro...
4-   RESUMO: entreguei toda a documentação para o Blasi para entregar à sua esposa e acadêmica Márcia Guedelha Blasi...

Na hora me lembrei da crônica da ELDA MOSCOGLIATO – a maior cronista de Botucatu! –  e a sua paixão pela rua CURUZU...

Nada mais justo do que reproduzirmos, abaixo, a magnífica crônica da Elda. É uma aula de como se escreve e, também, sobre a história de Botucatu.
A ABL, seu presidente e seu futuros Membros Efetivos me levaram a escrever este post.
Valeu.

A CURUZU faz parte da construção da cidadania em Botucatu!


O Microcosmo da Curuzu

Caríssimo Armando:

Estamos no limiar do Advento, presente uma vez mais, na rememoração do fato único que abalou o mundo nos alicerces metafísicos da civilização greco-romana, dividindo a Humanidade nos dois períodos ante-pós Cristo, graças a uma Noite Iluminada que depôs, segundo as Escrituras, numa Manjedoura, um Menino Sublime, embalado por vozes místicas, ao bafejo acalentador de dois animais insones. Segundo a Montessori – o Único Deus que nasceu Menino!
Por isso, aqui deixamos nosso antecipado abraço amigo a você, à Beth e aos queridos universitários, numa homenagem de Feliz Natal e um Grande (o último) Ano Novo (do milênio), com um pequeno “recuerdo” do microcosmo da rua Curuzu e seus moradores históricos, especialmente dedicado ao seu “Peabiru” natalino.
Acedemos ao convite gentil das Profas. Lola Pedretti e Maria Silvia Conti Cintra Dall’Acqua, integrantes do Grupo Convivência, formado por senhoras de nossa sociedade atentas à liderança prestimosa da caríssima amiga D. Elvira Marins, irradiante de simpatia e bondade.
Através desse Grupo Convivência, sediado no Convivium – Espaço Cultural “Dr. Francisco Marins”, desenvolve-se um programa muito bem elaborado sob o tríptico: social-benemérito-cultural (intuímos sob inspiração do querido Padre José Marins – itinerante pelo mundo a pregar a unidade cristã), incluídos estudos bíblicos, lazeres (artesanato opcional, leituras, grupo orfeônico) e palestras e conferências a cargo de convidados especiais.
As reuniões às quartas-feiras, pelas quinze horas, prolongando-se até as dezoito, terminadas em saboroso coquetel num ambiente agradabilíssimo. Encontros prazerosos, nível cultural seleto, alegria contagiante, humor descontraído. Assemelham-se-nos ao chá das 5 do antigo Mappin ou a reunião acadêmica das quintas-feiras, entre música, prosa e convivência, tal como no-lo descreveu Affonso Schimidt em São Paulo dos meus amores.
O tema que nos foi proposto versou sobre a histórica Rua Curuzu delimitada entre 1890 – 1964, época em que a deixamos, despegando-nos de seu maravilhoso pequeno-grande mundo de gente, fatos, vultos imorredouros no nosso coração e na nossa memória. Muitos dos nossos depoimentos foram recontos hauridos da memória grandiosa de nossos pais, em torno de mesa familiar, nos longos e saudosos almoços patriarcais. Outros mais detalhes e narrativas, foram observações nossas, produtos da vivência admirável num ambiente amigo, construído palmo a palmo na grandeza humilde do trabalho perseverante e digno, nos exemplos admiráveis de desprendimento e nobreza numa sociedade heterogênea em que se entremesclavam as mais variadas origens, etnias, usos e costumes, religiões e crenças sobrelevadas pela dignidade da pessoa humana.
Iniciada por estrada boiadeira, desde a Capelinha de Ana Rosa até o moinho do Salgueiro e o Chafariz da Biquinha, a rua chamou-se primitivamente  Das Flores, abrigando uma população de imigrantes formando um microcosmo trepidante de trabalho, cantares, movimentação febricitante que irradiava vida sadia, vida comunitária de cooperação, solidariedade, compreensão, amor e amizade.
Nesse microcosmo fabuloso excediam os italianos, que com muita honra mencionamos situando-os tanto quanto possível pela ordem de moradias na calçada de cima e de baixo, do Lavapés à Biquinha: Galerani, Canni, Ferrari, Gasparini (1), Paganini-Primo, Pauletti, Botti, Ambrosini, Fioravanti, Torelli, Pedretti, Varoli, Aversa, Cesário, Maffei, Nardini, Tognozzi, Fattori, Grecco, Fazzio, Falbo, Faconti, Avallone, Tillio, Cordoni, Zagottis, Pedutti, Paganini-Ricieri Rosa, Magnani, Moscogliato, Dal Farra, Stumpo, Damatto, Villa, Tortorella, Scripillitti, Michelucci, Lofiego, Gasparini (2), Nigro, Barcarolli, Baptistão e Vitti. Entre os alemães: Zeugner, Mayer, Von Giesler, Gross, Knuppel. Suíços: família Hirsch. Brasileiros: Boava, Paes de Almeida, Souza Nogueira. E portugueses: Dias e Catarino.
A quase (senão inteira) totalidade era dona proprietária de seu próprio prédio. Rua de grande movimentação comercial, era considerada a principal pois muito mais tarde o comércio grimpa as veredas alcançando a rua do Comércio.
Dentro do traçado da cidade de projeto invejável para o futuro, a Curuzu era rua larga, poeirenta, de calçadas delineadas a pedra sabão, com alinhamento perfeito, arborizada com plátanos, por muito tempo, O paralelepípedo só lá chegou por 1930, mais ou menos.
A atividade humana pulalava entre armazéns (Canni, Sabino Botti, Aversa, Lofiego); depósito de cereais (Fioravanti); açougue (Avallone e Vitti); sapatarias (Torelli, Grecco, Tortorella); barbearias (Nigro, Moscogliato, Rafael Avallone); marcenaria (Michelucci); alfaiataria (Zagottis, Paganini, Gasparini); ouriversaria (José Pedutti). Costureiras: Selma Zeugner, Pauletti, Florinda Fattori, Mimi Knuppel; bordadeira: Alice Knuppel; folheiro: Stumpo; além de outros ofícios; viajantes-cometas; fotógrafo: Emílio Garcia, Progresso Garcia, tipógrafos, funcionários municipais, estaduais e federais.
Apreciada por alto, deixemos a parte comercial do pequenino mundo da Curuzu, para destacar-lhe o nível educacional e cultural enriquecido de livros e música, que a transformavam num universo de sons e acordes desde os cadernos de Schimoll batidos pela juventude estudiosa que frequentava o Santa Marcelina. Havia oito pianos a alegrar o ambiente, a saber: Família Sabino Botti, pela Diva; Profa. Isabel Maffei, que abemolava as noites e os luares com suas berceuses e valsas de Strauss; dos Moscogliato, a pequenina pianista Maria Anna; mais ao longo da rua, Família Faconti, o piano executado pela Myriam; Família  Gastão Dal Farra, pelas quatro admiráveis filhas, dentre elas, a Maria Lúcia; e Baptista Dal Farra, pela Therezinha, organista inclusive, do Coral da Catedral. Família Amilcar Montebugnoli, com escola de piano dirigida pela Iris, pianista do Clube 24 de Maio. Mais para o avançado da Curuzu, a Profa. Emilia Gross ensina piano e alemão, mantendo frequentada escola para a juventude.


Em 1925, vinda do Paraná, estabeleceu-se na Curuzu, a Família Elias Serra Neto. D. Branca, a esposa, iniciou nova escola de piano da qual foram alunos, com belo destaque, o compositor Tite Bechelli e D. Elvira née Bandeira de Mello.
O clima caracteristicamente italiano da Curuzu propiciou a formação de orquestras e conjuntos que tanto brilharam, a seu tempo, na sociedade botucatuense. Aquele miraculoso pequeno mundo alegrou as tardes estivais com a música do Conjunto ORQUESTRAL  Botucatuense em seus ensaios harmoniosos e que tanto enriqueceram a programação do Centenário da Cidade, em 1955.
Lá nasceu a Suite Botucatuense que marca indelevelmente os festejos centenários, obra imortal do Prof. Aécio de Souza Salvador, sob letra de Pedretti Neto. E mais: a Canção de Natal (Aécio e Pedretti), hoje cantada no mundo todo.
Desse fabuloso microcosmo, depositário dos mais belos capítulos da vida botucatuense, avultam ainda, para nossa memória histórica, vultos admiráveis de homens e mulheres que no anonimato de uma vida simples e trabalhosa, entre canseiras e suores, sacrifícios e sucessos, souberam transmitir às gerações que os sucederam a dignidade e a força do caráter viril.
Do pequenino mundo da rua Curuzu cresceram Emílio Pedutti, financista e político; Plínio Paganini, político e homem de empresa; Renato e Nelson Botti, banqueiros; Afonso e Julio Botti, aviador herói-civil eMário Botti, do mundo capitalista da metrópole paulista; Domingos e Oberdam Faconti, jornalista e escritor em Santos; Pedretti Neto, professor, jornalista e poeta; Maria Lúcia Dal Farra, brilhante poetisa, catedrática universitária de Português e Literatura Luso-Brasileira; Gastão Dal Farra, professor, músico, mestre o Vice-Diretor da nossa antiga Escola Industrial “Dr. Armando de Salles Oliveira”, realizador de nosso primeiro brasão histórico botucatuense; Revdas. Irmãs Marcelinas Hermenegilda e Antonieta Dal Farra; Irmã Clarice Pires de Campos, da Congregação de Maria, hoje no Rio Grande do Sul e por fim, o Prof. Milton Marianno, professor, economista, alto funcionário aposentado do Sudaméris do Brasil, jornalista fundador e Diretor da Gazeta de Botucatu.
De nossa resumida palestra, Armando, destacaram-se os vultos amoráveis de Francisco Grecco, Herminio Aversa e a inesquecível D. Isabel da Cruz Maffei, cada qual um poema de grandeza de caráter, de lhaneza de conduta, de coração largo e generoso.
O tempo foi escasso para a memória e a saudade.

(Peabiru - revista botucatuense de Cultura, novembro/dezembro/98 – Ano II – nº 12)