NÃO. Nada disso...
O povo conectado através de suas lideranças naturais, a juventude motivada, famílias nas ruas, multidão crescendo, o repúdio à violência, o acerto de contas e o prazo expirado de um Ditador e de um Regime que há 30 anos oprimiam e calavam um povo de tradições de lutas e de exemplos de heroísmos. Foi o fim de uma era de opressão! Caiu o Ditador. Renunciou ao poder que tivera. Fugiu...
Simples assim?!?
Sim, simples assim e surpreendente! Mágico! Vozes que chegavam aos lugarejos, às aldeias e que vibravam na periferia do Cairo. A arma mortal era aparentemente inofensiva. Ela conectava pessoas, levava rapidamente notícias, relatava online a espectativa de um mundo todo acompanhando as esperanças de uma Nação inteira. A Aldeia Global se corporificava no avanço tecnológico da comunicação via internet...
Mas havia a pobreza, o descontentamento dos oprimidos, a oposição dos cidadãos prestantes, havia a exploração dos governantes, havia a corrupção dos pulhas, sim, os ingredientes da opressão que são os mesmos de inúmeros povos do planeta terra. Mas aqui havia essa nova chama da liberdade de imprensa , da liberdade de expressão que constroe a Democracia, dá voz aos mais fracos e castiga os malfeitores do serviço público...

O globo/leia aqui
estadão/leia aqui
A imprensa nos mostrou, desde o início, a mobilização crescente e...diferente. Tendo levado o presidente dos EUA a afirmar, com admiração, que vira, via internet, na praça da vitória, famílias inteiras com seus filhos pequenos e, também, jovens, muitos jovens! Era o Egito redivivo a cobrar os seus direitos e a resgatar a sua honra!
NO PASSADO, UMA HISTÓRIA DE VITÓRIA DIFERENTE...
Como a grande maioria dos brasileiros, eu também acompanhei essa explosão de cidadania! E fiquei com a certeza de que uma mobilização daquele vulto, com gente surgindo de todos os lados não seria, não poderia ser obra de uma revolta organizada, adrede preparada, não! Foi obra das mensagens rápidas para uma população que tinha uma liderança natural que, esta sim, já estava conectada e acompanhava o que acontecia no mundo todo. E lembrei-me do fim da opressão para inúmeros países com o desmoronamento do Império Soviético.
Ninguém imaginava, à época, que seria possível ruir como ruiu a União Soviética. Poucos lhe faziam oposição, os intelectuais engajados silenciavam quando a bota e os tacões dos invasores soviéticos humilharam os húngaros e invadiram a antiga Checoslováquia! Houve, sim, um silêncio sepulcral da grande imprensa brasileira quando, iniciante no jornalismo, escrevemos em jornal da capital paulista, a nossa revolta contra aquele massacre e contra o silêncio conivente das cabeças pensantes engajadas ou simplesmente medrosas.
O artigo “TIREM AS PATAS DAÍ ! ” retratou a barbárie da invasão soviética. E, no ano de 2010 – 40 anos depois ! – fomos ver, in loco, a realidade da agora República Tcheca. E pudemos repetir as palavras daquele artigo/protesto:
“As patas e os tacões indesejáveis e indesejados continuarão a conspurcar o solo livre: o checoslovaco. Sim, livre, porque ninguém mata a liberdade. Nem tanques, nem canhões, nem patas de cavalos. E um dia a mocidade desse país, espelho para o mundo, gritará com toda a força de seus pulmões: svoboda, svoboda! (liberdade, liberdade!)”

Checoslováquia/leia aqui
No ano passado, após a visita à antiga Checoslováquia, escrevemos o artigo “Checoslováquia: Svoboda, Svoboda !”, e o unimos ao artigo escrito há 40 anos: “Tirem as Patas Daí!”. Os dois testemunhos passaram a fazer parte da matéria “ A INVASÃO DA CHECOSLOVÁQUIA” que foi divulgada com muito orgulho em livro e no meu site na internet.
O “DAY AFTER” DO EGITO !
Para os grandes estudiosos, para os cientistas políticos, para os analistas políticos da imprensa mundial restou uma enorme e surpreendente surpresa. A praça da vitória continuava com a população se confraternizando, mas lideranças que mantinham contato com a imprensa do mundo todo que estava acompanhando o grande protesto, tão logo chegou a notícia da renúncia do Presidente Mubarak e de seu vice, comunicaram: o protesto acabou!
E, em uma cena inédita, populares a varrerem o chão, limpando pichações, lavando estátuas nas ruas e na praça. E tudo num clima de grande euforia e comemoração, crianças subindo nos tanques de guerra, soldados irmanados à população! E a operação limpeza era espontânea, como a dizer ao mundo que tudo acompanhava, que o povo estava consciente do que fizera e, agora, era a hora da mobilização positiva. Um cartaz, em inglês, levantado por um cidadão na praça, dizia tudo: “Desculpem. Estamos Reconstruindo o Egito !”


