abril 06, 2014

Estórias de Pescador...José Antônio Sartori

Estórias de
Pescador...

O Professor José Antônio Sartori pertenceu à ABL – Academia Botucatuense de Letras. Membro Efetivo foi dinâmico vice-presidente, estando à frente de grandes eventos da ABL. O livro do “Jubileu de Prata da ABL – 1973-1998)” foi coordenado por ele. Professor de Ciências premiado como Cientista do Ano, teve seu livro de Ciências em coautoria com o Prof. Marques como campeão nacional de vendas. Colaborador da revista PEABIRU, tem artigos importantes sobre a história botucatuense. O artigo "Três Mentiras Verdadeiras" foi publicado no "ALMANAQUE CULTURAL DE BOTUCATU/2000", com ilustrações feitas em 1972 pelo prof. Vinicio Aloise.



Três Mentiras Verdadeiras

Sábado.
            Dia de verão, ensolarado, muito quente, estafante.
            O silêncio da mata é quebrado pelo murmurinho das águas do rio em corredeira.  Logo acima, troncos de árvores abatidas pelo vento, mergulhados, represam o rio formando um remanso - um poço.
            À margem e à sombra das árvores do mato, sobre bancos de areia límpida, nos instalamos para pescar lambaris, piavas, mandiuvas, etc.  A água turva e o rio pré-anunciavam boa pescaria.
            Não foi fácil chegar a esse lugar.  A trilha dos pescadores, outrora bem batida, apresentava um verdadeiro emaranhado de enroscos: ramagens recém brotadas, galhos de agarra-compadre, cipós pendentes, ofereciam obstáculos à nossa passagem em diversos lugares.  As pontas das varas, a mochila, o chapéu e até nossa camisa, nos espinhos se prendiam.  Além disso, as fortes chuvas caídas em fevereiro, acumularam no meio do mato, águas estagnadas em buracos, verdadeiros criadouros de pernilongos.  Certamente ao entardecer, iríamos sentir na pele a presença deles.
            Pescar onde?  Na corredeira?  No poço?
            Depois de bater vara aqui e ali resolvemos cevar o poço com quirera de milho, pão amanhecido e esfarelado.  Logo, alguns lambaris foram fisgados tanto na corredeira como no poço, onde meu filho esperava pelas piavas.
            O tempo mudou.  Trovões rolavam no horizonte ao longe.  O céu escureceu indicando chuva iminente.  Mas, não choveu.  O céu silenciou.  O vento também não apareceu.  Que mormaço!
            Os peixes começaram a pular fora d’água.  Ficaram alvoroçados.  Seguidamente eram fisgados.  A ceva valeu.  Estavam comendo.
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            Num dado momento, um puxão forte.  A vara vergou bastante.  Parecia um peixe grande.
            Que surpresa!  Um belo tambiú ( lambari do rabo amarelo) bem grande preso pela metade do corpo.  Mostrei a meu filho.  Precisava de uma testemunha ocular.  O anzol se enroscou na linha formando um laço que apertou a barriga e a nadadeira dorsal do peixe.  Saiu fora d’água na horizontal como se estivesse nadando no ar.
            Mais tarde, chegaram dois rapazes na margem oposta do rio, à nossa frente.  Foram benvindos.  Sempre há lugar para mais um, desde que se faça mudo e guarde silêncio.
            Como de costume, quando conversava com meus botões, ao lançar o anzol iscado no rio, fui surpreendido por um vulto negro que cruzou o espaço a minha frente; atingido, raspou-se no anzol, esticou energicamente a linha, perdeu penas e quase cai n’água.  Graças a velocidade com que vinha e perícia, a ave, talvez algum anu-preto, alçou vôo novamente e foi embora! 
            Ora que coisa inacreditável!  Acabara de fisgar um pássaro e na presença de alguns pescadores
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            Continuei a pescar com vara telescópica de nailon e linha bem comprida para pegar os peixes na corredeira.  Por várias vezes, saí de um enrosco no meio do rio até que o anzol se prendeu muito bem, talvez num galho mais resistente mergulhado n’água.  Tentei alcançar a linha e puxar para abrir o anzol.  Não conseguindo isso forcejei pelo cabo da vara.  Nesse instante, a ponta da vara saltou para dentro do rio.
            Como poderia ter acontecido com um material importado?  Um presente de minha filha e que muito estimava.  Chorei  reclamações.
            Mas o que fazer?  Eu sabia que a ponta da vara estava presa à linha, esticada pela correnteza, perdida.
            Desisti de recuperar.  Agora tinha uma vara incompleta e inútil.
            Usei outra e voltei a pescar.  Após algumas lançadas de anzol na água, acidentalmente pesquei uma linha, e nela ainda se achava presa a ponta de minha vara de nailon.  Que sorte!  Jamais pensei que isso poderia acontecer.  E tudo aos olhos de meus companheiros.
            A pescaria foi ótima.  Pegamos muitos peixes.  Mais de 50, em média, cada um.
            A tarde agonizava depressa e um chuvisco transmudara-se em grossos pingos, em chuva forte, que nos acompanhou até chegarmos ao automóvel, todos molhados.
            Rapidamente partimos deixando para trás o Rio Alambari  na Fazenda do senhor Mané Teixeira.
           


5 comentários:

Delmanto disse...

Quem teve a oportunidade de conviver com o professor Sartori sabe de sua importância para a cultura botucatuense. Como vice-presidente da ABL - Academia Botucatuense de Letras, soube imprimir um ritmo positivo nos eventos e nas publicações da Academia.
Colaborou com a revista PEABIRU, escrevendo artigos referentes à história da cidade e a importância de seus vultos mais importantes. Retratou com perfeição a Festa do Divino Espírito Sanbto de Anhembi, com ilustrações do professor Vinicio Aloise.

Anônimo disse...

Antonina Mendonça (Facebook):
Tio Zé,homem simples, honesto e inteligente. Grande orgulho!

Anônimo disse...

Djanira Genovez (Facebook):
Meu querido professor de Ciências...Bela lembrança.Obrigada...

Anônimo disse...

Carlos Teixeira Pinto (Facebook):
Eh! Armando , quantas lembranças você nos traz . Abraço amigo .

Anônimo disse...

Maíra Sartori Bemfica (Neta)
Meu orgulho e minha saudade eterna!!!
Grande exemplo na minha vida e na minha educação!!
Muito amor e carinho!!

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