Mostrando postagens com marcador Assistência Social. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Assistência Social. Mostrar todas as postagens

abril 21, 2018

50 anos do Albergue Noturno de Botucatu

50 anos
do
Albergue Noturno de Botucatu

O Registro Histórico do Albergue Noturno de Botucatu precisava ser feito para que não se perdesse no tempo...

Surgiu como Lei Municipal, de autoria de Antônio Delmanto, em 1949. No ano de 1956, como os prefeitos alegassem que não havia verba para a instalação do Albergue, Antônio Delmanto e um grupo de amigos colaboradores, iniciou a construção do Albergue como uma iniciativa privada. Com a colaboração da sociedade botucatuense, de empresários e políticos; com a realização de sorteios e rifas levou em frente essa iniciativa. Em 1968 – 12 anos após a criação da lei que criara o Albergue, em 1949 – era inaugurado o ALBERGUE NOTURNO DE BOTUCATU.

Após 20 anos de ininterrupto funcionamento, com expressivo atendimento social, o ALBERGUE foi DOADO à Prefeitura Municipal. Na época, eu exercia a presidência e meu pai a vice-presidência. Com a DOAÇÃO foi transferido para a Prefeitura Municipal de Botucatu o patrimônio que o Albergue recebeu de herança no valor estimado da época de 5 milhões de dólares!!!

Infelizmente, a prefeitura perdeu prazos processuais e o patrimônio do Albergue Noturno foi transferido para o Hospital do Câncer. Foi uma perda irreparável para as entidade sociais de Botucatu...

Hoje, o Albergue tem outro nome (Camin), está em outro prédio da prefeitura, mas as bases de sua construção estão firmes em sua atividade social em 50 anos de existência.

É um orgulho para Botucatu!

É REGISTRO HISTÓRICO!

Hoje, todos conhecem o papel exercido pelo Albergue Noturno no setor assistencial de Botucatu... Mas poucos sabem da construção dessa entidade de assistência social iniciada há mais de 60 anos.

Sim, no distante ano de 1948, na primeira legislatura de nossa Câmara Municipal após a longa Ditadura Getulista, Botucatu começava a viabilizar a idéia da construção de um abrigo municipal para os menos favorecidos - famílias inteiras ! - que procuravam a Misericórdia Botucatuense para tratamento e não tinham onde ficar hospedados...

 Na Câmara Municipal, o presidente Antônio Delmanto, coloca em pauta de votação, no dia 15 de fevereiro de 1948, um projeto de lei, de sua autoria, criando o Albergue Noturno de Botucatu, com as seguintes consideranda:

"Considerando que Botucatu é um centro de zona, onde acorrem não só os habitantes da parte rural do município, mas também de outras cidades;
Considerando que famílias ou pessoas pobres, sem recursos, de passagem por Botucatu, pernoitam na Misericórdia, nas outras casas de caridade e, por vezes, na Cadeia, quando não nas praças públicas;
Considerando que essa falta de assistência depõe contra a nossa cidade, influindo na saúde, na resistência e na disposição ao trabalho dessas infelizes criaturas;
Oferecemos a consideração da Câmara o seguinte

 PROJETO DE LEI

Art. 1º - Fica criado o Albergue Noturno de Botucatu, com acomodações independentes para homens, mulheres e crianças;
Art. 2º - O Executivo Municipal fica autorizado a mandar proceder o estudo e a confecção da planta e orçamento das obras;
Art. 3º - A planta, orçamento das obras bem como o contrato para a execução do serviço deverão ser aprovados pela Câmara;
Parágrafo Único - O contrato para execução do serviço, deverá obedecer as normas estatuídas no artigo 82 da Lei nº 1, de 18 de setembro de 1947;
Art. 4º - Fica o sr. Prefeito Municipal, autorizado a escolher o terreno destinado à execução da presente lei;
Art. 5º - A despesa com a execução desta lei, correrá por conta do crédito que oportunamente será aberto e pela campanha que será feita junto às Associações locais e à população do município;
Art. 6º - Esta lei entrará em vigor na data de sua promulgação e publicação, revogadas as disposições em contrário.
Sala das Sessões, 19 de janeiro de 1948.
Vereador Antônio Delmanto (autor)"

 Aprovado por unanimidade, o projeto de lei de criação do Albergue Noturno de Botucatu, contou com o apoio de toda a bancada udenista que o subscreveu e com parecer favorável e unânime da Comissão de Pareceres.

Nessa ocasião, o Dr. Antônio Delmanto deixou a presidência a fim de discorrer sobre o assunto. Assumindo a presidência, o vice-presidente Emílio Peduti.

 O Dr. Antônio Delmanto pediu a palavra e depois de congratular-se com a Casa e com Botucatu pela escolha do nome honrado do Sr. Emílio Peduti para o cargo de vice-presidente da Câmara, disse "que o Sr. Emílio Peduti, que há onze anos vem exercendo a presidência da Misericórdia Botucatuense, data em que com ele assumi a Direção Clínica, poderia testemunhar as razões de seus argumentos. Que muitas e muitas e muitas vezes, como Diretor Clínico daquele Hospital, mandei que se internassem famílias inteiras , não porque estivessem enfermas, mas porque batiam àquela Casa fundada pelo Dr. Costa Leite, a fim de solicitar um abrigo. Que as mulheres e as crianças, sistematicamente, eram e são atendidas, o mesmo nem sempre acontecendo aos homens, visto a enfermaria se achar sempre cheia, com os colchões e divãs espalhados pelo salão. Eram, no entanto, encaminhados à Delegacia de Polícia, onde o dr. Delegado, colaborando nessa assistência, permitia e permite que os mesmos lá pernoitem, tomando as refeições na Misericórdia.

Quando o perigo de acorrerem para Botucatu pessoas vadias, não procede. O Albergue Noturno terá seu regulamento e um responsável pelo seu funcionamento, sendo que as pessoas lá abrigadas terão um máximo de dias, digamos 3 dias, para depois, então, prosseguirem em seu destino. Passados esses dias, só serão concedidos mais alguns dias em casos excepcionais e justos. Quanto ao outro argumento que poderia ser ventilado, isto é, da falta de verbas, esclarece que no referido projeto de lei diz que esse crédito será aberto oportunamente , e que contará com uma grande campanha junto às associações de classe, à população botucatuense e às pessoas amigas da cidade, campanha essa, que ele teria o prazer em tomar parte."

 Aprovado em primeira votação, esse projeto de lei seria aprovado, em segunda votação, no dia 11 de abril. E os anos se passaram... e nada de cumprimento da lei. Os prefeitos sempre alegavam falta de verba... O problema social só se agravava e... nada de solução.

Em 1956, há exatos 8 anos da aprovação do projeto, Antônio Delmanto à frente de uma entusiasmada equipe de colaboradores, deu início à construção do Albergue Noturno.

 Foram inúmeras as campanhas para arrecadação de fundos, sendo certo que a população botucatuense sempre respondeu positivamente, e as contribuições foram de deputados amigos da cidade (Dep. Abreu Sodré consignou inúmeras vezes verbas para a construção do Albergue; o deputado Antonio de Souza Noschese (botucatuense), ofereceu todas as louças necessárias para os banheiros do albergue, além da ajuda de outros parlamentares). 

De justiça, a citação dos nomes dos que sempre colaboraram na administração do Albergue: Abílio Dorini, Heraldo Stefanini, Isidoro Martins, Genésio Piagentini, Francisco de Assis Domingues, José Carlos Fortes, José Giacóia Sobrinho, Amando Laperuta, Aldo Martin, Armando Moraes Delmanto, Laurindo Izidoro Jaqueta, Oscarlino Tancler, Rafael de Moura Campos, Geraldo Bártoli, Antonio Tílio Jr e muitos outros valorosos companheiros.


 Prefeito Amaral de Barros, Governador Abreu Sodré e o presidente da Câmara Municipal, Antônio Delmanto. Ve-se, ao fundo, vereador Alberto Laurindo, sub-chefe da Casa Civil Hélio Mota e o deputado federal Braz de Assis Nogueira (14 de abril de 1968)


À partir da esquerda, Antonio Cordeiro, Alfredo Chaguri, Governador Abreu Sodré, prefeito Wadi Jorge, Antônio Delmanto (presidente da Câmara) e prefeito Amaral Amando de Barros (15/04/1967).

 Em 1968, portanto 12 anos após o início de sua construção, foi inaugurado o Albergue Noturno de Botucatu, recebendo a denominação de "Gov. Abreu Sodré", em homenagem àquele que como Deputado Estadual destinou significativas verbas para a sua construção. Para que se tenha idéia da importância dessa obra, vamos apresentar dados estatísticos que refletem bem o movimento do albergue:

 "17.472 pessoas atendidas pelo Albergue Noturno de 12/5/68 a 31/12/71

Foram 8.950 homens, 3.730 mulheres e 3.792 crianças. Muitas pernoitaram várias noites, principalmente as que se destinavam ao Hospital das Clínicas. Foram fornecidos 20.548 pratos de sopa, 17.943 lanches para viagem, mais de mil consultas com fornecimento de medicamentos, 1.955 extrações dentárias (cujo serviço teve início em 1971, com a contratação do Dr. Domingos Minicucci), 825 curativos, 1.925 cortes de cabelo e barba, foram distribuídas 3.242 peças de roupas, 813 pares de sapatos e mil mamadeiras em média por ano."

Edição Especial da revista PEABIRU EM 2005

JORNAL "VANGUARDA", de 25 de maio de 1972.


As visitas que o Albergue recebeu e a manifestação de ilustres personalidades é representativa da realidade social que representa:

 "Dom Henrique Golland Trindade: Isto aqui não é um Albergue Noturno é um verdadeiro hotel, limpíssimo, completo, onde os hóspedes sentirão o desejo de se promover, de ser alguém, que não precise mais de albergue, mas de sua própria casa, modesta, mas limpa, acolhedora, feliz. Extraordinário o que acabamos de visitar. Parabéns sinceros ao Dr. Antônio Delmanto e a todos os que o ajudam na manutenção desta obra, orgulho de Botucatu. (19/9/69)."

"Dom Vicente Marchetti Zioni: Visitei hoje, 23/10/69, este Albergue Noturno, verdadeira revelação. Mais do que um albergue, afigura-se-me uma verdadeira escola de caridade e promoção humana. Escola que põe a caridade em ação; escola que realiza a elevação do homem, tratando-o como tal, respeitando-lhe a dignidade. Bendito seja Deus que suscitou esta obra e ampara os que a mantém com dedicação e altruísmo. Prouvera a Deus fossem assim como este todos os albergues do Brasil."

"Dr. José Felício Castelano, ex-secretário estadual da Promoção Social: É com grande prazer que, depois de percorrer quase 300 municípios, posso afirmar que esta obra pode ser considerada como padrão no gênero. Cumprimento o Dr. Antônio Delmanto e seus colaboradores. É realmente uma obra digna de servir de modelo, por sua construção e organização (12/4/70)."

"Professor Francisco Carlos Sodero, Assessor do Governador Abreu Sodré: Por todas as minhas andanças - Estado de São Paulo - Brasil - Exterior - vi coisas divinas e trabalhos humanos. Mas não vi organização que cuidasse do homem com o carinho e o respeito que a pessoa - o ser feito à imagem e semelhança de Deus - merece. Degradado pela miséria, pela fome, pelo desamparo, encontra aqui o conforto do corpo e a esperança para o espírito. A esse coração de amor, Dr. Antônio Delmanto, alma deste albergue, a seus auxiliares, o meu respeito (12/4/70)"

Prof. João Queiroz Marques: Visitando o Albergue Noturno, sinto que esta instituição assistencial deve ser conhecida por todos os homens de boa vontade desta terra. Ela preenche uma necessidade premente de nossa coletividade e, desde já, ofereço-me a colaborar, em todos os sentidos, para sua continuidade. Parabéns, pois, aos seus diretores e em especial ao Dr. Delmanto, cuja atuação humanitária venho acompanhando há mais de vinte anos (15/2/70)."

"Dr. Romeu do Amaral Gurgel:
"No Hotel das Cataratas, em Iguaçu, existe um livro como este, onde os visitantes consignam suas impressões. Um grande jornalista norte-americano escreveu apenas isto: "Poor Niagara".
Parafraseando o beletrista yankee, depois de visitar este maravilhoso Albergue Noturno Governador Abreu Sodré, nós dizemos: Pobres os vários albergues que temos visitado em S. Paulo e fora dele! Esta obra magnífica de meu prezado e grande conterrâneo Dr. Antônio Delmanto, amigo dileto, é bem "uma verdadeira escola de caridade e promoção humana" como afirmou o nosso eminente arcebispo Dom Zioni (12/4/70)"

"Dr. Mário Iello, Delegado Seccional de Polícia:
"Tivemos oportunidade de conhecer hoje, a convite do Dr, Antônio Delmanto, seu mui digno Presidente, o "Albergue Noturno Governador Abreu Sodré". Em sã consciência, não há quem não se entusiasme ao ver o erguimento e funcionamento numa cidade do interior, de recolhimento tão modelar, mantido graças ao trabalho e dedicação de seu Presidente. É aí que vemos o que consegue a paciência e o trabalho em prol de um objetivo tão humano; e por aí vemos que muitos outros setores que preocupam os poderes competentes podem ser solucionados desde se siga o exemplo deste Albergue. Somente o trabalho, o sacrifício, a ordem e a dedicação tudo pode resolver (30/1/70)"

"Dra. Lauri Garcia, Assistente Social da Secretaria de Promoção Social - Sorocaba:
"Foi uma satisfação imensa conhecer esta obra social, que testemunha em voz alta um espírito de doação e amor Cristão. Apesar das dificuldades encontradas, o êxito sempre será presente, porque Deus está junto no Serviço da promoção humana, e também estará ao lado de todos que lutam nesse trabalho". (23/3/72)"

 Durante 20 anos, o Albergue Noturno funcionou regularmente, contando com a colaboração de voluntários e de campanhas de arrecadação de alimentos, cobertores e gêneros alimentícios. Nas palavras do seu presidente, toda a realidade de uma luta vitoriosa:

 "Levamos 12 anos na construção. Aproveitamos antigas caixas sépticas que funcionaram durante muitos anos como estação de tratamento de esgoto, que com o tempo e o crescimento da cidade tiveram que ser abandonadas. Estas caixas se tornaram o primeiro piso, com dez chuveiros, dez instalações sanitárias, rouparia, depósito, refeitório, cozinha e despensa. Na parte superior, quatro dormitórios coletivos, consultório, sala de curativos, gabinete odontológico, sala de reuniões, portaria e instalações sanitárias. Os prefeitos Emílio Peduti e Joaquim Amaral Amando de Barros colaboraram, tendo o sr. Amaral de Barros pavimentado a praça fronteira. Dr. Antonio de Souza Noschese doou as instalações sanitárias e os lavatórios. O Albergue foi inaugurado com a presença do governador Abreu Sodré e em seus 20 anos de funcionamento recebeu subvenção apenas na gestão do prefeito Plínio Paganini. Chegamos a atender 3 mil pessoas por ano que recebiam pijamas para dormir e, quando saiam, os mais carentes levavam peças de roupas, principalmente calças que mandávamos fazer com costureiras botucatuenses. A Prefeitura fazia todos os anos campanha de roupas usadas e agasalhos, mas o Albergue era sempre esquecido."
 As palavras escritas pelo historiador e médico, Dr. Sebastião de Almeida Pinto, dão um retrato fiel do que foi a luta e o que representa o Albergue Noturno:
 " O Albergue Noturno surgiu como uma promessa quando o vereador Delmanto apresentou projeto de lei que o criava. O projeto foi aprovado. Durante anos e anos o vereador Delmanto não viu os Prefeitos que passavam por Botucatu cumprirem o que determinava o projeto de lei.
Mas era preciso fazer alguma coisa. E Antônio Delmanto que durante 15 anos como Diretor da Misericórdia Botucatuense notava, diariamente, o desespero das famílias que aportavam e sem recurso algum, maltrapilhas e sub-alimentadas batiam à porta da casa fundada pelo humanitário médico, Dr. Costa Leite, à procura de abrigo por uma noite. Foi então que Antônio Delmanto e vários companheiros deram início ao longo e difícil trabalho. E para a concretização dessa obra a contribuição financeira do então deputado estadual Roberto de Abreu Sodré foi de fundamental importância. E o Albergue Noturno foi inaugurado no dia 14 de abril de 1968, aniversário da cidade."
Nesse artigo (publicado pela "A Gazeta de Botucatu", de 14/9/68), o Dr. Sebastião de Almeida Pinto destacava que havia uma falha na assistência social da cidade, mas ressaltava que havia...
"...porque não há mais. Era a assistência aos andarilhos, aos andantes, pobres criaturas que ficavam ao léo, nas noites frias que passavam em Botucatu. Também sofriam as intempéries, viajantes pobres, lavradores em trânsito, que por deficiência de recursos financeiros, dormiam na plataforma da estação ferroviária ou nos bancos dos jardins. Curtindo fome e frio. Agravando seus males, como era o caso daqueles que demandavam o hospital das clínicas de Rubião, onde só podiam ser atendidos durante o dia.
Agora tudo mudou. O Dr Antônio Delmanto deu um jeito nessa coisa feia. Com a construção e funcionamento do Albergue, o dinâmico e humanitário médico sanou aquela falha gritante na assistência aos desprotegidos da sorte.
O Albergue Noturno botucatuense merece uma visita. O visitante poderá aquilatar o que ali se faz em proveito da pobreza em trânsito: é um leito macio e aconchegante; é um banho reconfortante; é um jantar fumegante e gostoso; uma roupa limpa e um lanche para a viajem, na manhã seguinte. Se o paciente - homem, mulher, adulto ou criança - estiver doente, o Dr. Antoninho, o socorrerá, medicando-o, internado-o, se for o caso. Tudo, como manda o coração bondoso do ilustre colega Delmanto, corpo e alma da benemérita instituição. Ordem, disciplina, asseio, caridade, fraternidade, são constantes na casa que o Souzinha (ex-jogador do Corinthians e Campeão do 4º Centenário) e sra. dirigem, sob a supervisão do Dr. Antoninho, como o chamam os botucatuenses que o conhecem desde a meninice."

 Foram 20 anos de funcionamento exemplar! No ano de 1988, o Albergue Noturno foi transferido para a Prefeitura Municipal como era o grande sonho de seu fundador: a Lei que criou o Albergue Noturno, enfim, tornara-se realidade, o Albergue Noturno era um próprio municipal!
 Em meados de maio de 1988, em solenidade realizada na Prefeitura Municipal, o presidente em exercício do Albergue, Dr. Antônio Delmanto, assinava o termo de doação do Albergue e de todo seu patrimônio. Nesse aspecto é preciso destacar o valioso patrimônio que o Albergue Noturno ganhou graças ao interesse do Dr. Berval Delmanto (irmão de Antônio Delmanto) que tendo um cliente de descendência árabe, muito rico e sem herdeiros, o aconselhou a que doasse seus bens para instituições de caridade.
 Assim, em testamento, o rico senhor deixou a maior parte de seus bens para o Hospital do Câncer de São Paulo, e muitos bens para o Albergue Noturno de Botucatu. Esses bens, cerca de 19 imóveis, eram localizados nas Alamedas Pamplona e Santos (10 ou 12 lojas comerciais), mais uns 8 apartamentos nas Avenidas Paulista e Angélica (uma casa). E, pasmem!, esse dinheiro, esse patrimônio (avaliado à época em 5 milhões de dólares) foi perdido!
 Não foi perdido para a sociedade, mas, sim, para a assistência social de Botucatu: ocorreu que a Prefeitura Municipal perdeu os prazos processuais para habilitar-se no processo de inventário e o Juiz determinou que todos os bens fossem para o Hospital do Câncer.
Mas Botucatu, com certeza, perdeu e muito... Uma fortuna. Daria para manter o Albergue, a Misericórdia Botucatuense e todas as entidades assistenciais de Botucatu. A doação do Albergue para a Prefeitura já havia sido feita, incluindo o direito a esses bens. Qual entidade não iria festejar uma doação como essa?!? Mas, acima de tudo, estava o grande sonho de seu fundador, Antônio Delmanto, concluir o que começara em 1948...

 Pois bem, na solenidade de transferência do Albergue Noturno para a Prefeitura de Botucatu, estavam presentes todos os Diretores do Albergue: Dr. Antônio Delmanto, Genésio Piagentini, Aldo Martin, Dr. Antonio Tílio Junior, Dr. Isidoro Martins, Francisco de Assis Domingues, José Carlos Fortes , Amando Laperuta e Oscarlino Tancler. Na ocasião, o Dr. Delmanto discursou fazendo um histórico da construção do Albergue e de seu funcionamento, destacando o importante trabalho prestado por companheiros já ausentes, como Abílio Dorini, José Giacóia Sobrinho e Rafael de Moura Campos. Fizeram igualmente uso da palavra, o prefeito Municipal Antonio Jamil Cury e o vice-prefeito Joel Spadaro, ambos dando ênfase à importância do Albergue e à firme disposição da então administração de levar adiante e ampliar os serviços sociais do Albergue.

 Nas palavras de Antônio Delmanto, toda a emoção do ato de transferência:
"Meu filho Armando, tão dedicado, sabia das enormes dificuldades e que nós éramos o grande sustentáculo, a alma do Albergue. Com a idade chegando tudo começava a ficar mais difícil e a velhice, todos sabemos, é inexorável. Armando propôs ao Spadaro, então já candidato a Prefeito , a transferência do Albergue para a Prefeitura, fazendo cumprir, assim, a lei municipal de 1948 que criou o Albergue Municipal.
 Convocamos, como vice em exercício (Armando era o presidente), uma Assembléia propondo e sendo aceita a transferência e também, os direitos à herança consignada ao Albergue e que representa uma verdadeira fortuna, herança conseguida por meu irmão Berval que, como advogado, obteve junto a cliente amigo. Em nosso pensamento e intenção se a recebessemos, poderíamos melhorar e muito o Albergue, assim como consignar recursos para a manutenção de tantos meninos na Vila dos Meninos, tantas meninas no Orfanato, também tantos velhinhos no Asilo, além de auxílios mensais à Misericórdia Botucatuense. E construiríamos uma vila com pequenas casas para famílias pobres e com filhos menores, começando um trabalho que tentamos como vereador, objetivando combater as favelas. Há lei aprovada, de nossa autoria (1949), que obriga a Prefeitura a construir 5 a 6 casas populares, por ano, para famílias carentes. Essa lei nunca foi cumprida..."
 
Hoje, a cidade de Botucatu sabe que a Prefeitura Municipal tem condições de atuar efetivamente nesse setor assistencial".

Missão cumprida! Antônio Delmanto, deixou, para a história de Botucatu, marcada a sua trajetória como benemérito !

março 28, 2017

Botucatu e seu Líder Autêntico: JOÃO PASSOS !

JOÃO PASSOS:
Líder Autêntico!




clique na imagem para ampliá-la


Em uma entrevista que dei ao saudoso amigo Jaime Sanchez, para a sua revista “Boca de Cena”, em novembro de 1998, falando sobre o Comércio de Botucatu e a falta de novos líderes, eu citava o nome de JOÃO PASSOS: “...O Comércio local está meio à deriva...Esse é o meu ponto de vista (1998). O que eu acho é que é uma atuação limitada e provinciana. O comércio de Botucatu está buscando um novo João Passos, um novo Emílio Peduti, um novo Octácilio Paganini...”

Realmente, João Passos passou a ser o principal referencial de uma Liderança Positiva. Presidiu a Associação Comercial de Botucatu em 1949, e de 1955 a 1969. Como Diretor Presidente da Cinematográfica Araujo & Passos, tinha uma presença sempre forte na defesa dos interesses dos comerciantes. Ao mesmo tempo, presidiu e viabilizou o Botucatu Tênis Clube – BTC, como o melhor clube da cidade e, como rotariano, presidiu e foi Governador do Rotary Clube. Na presidência do Rotary Clube de Botucatu, com a ajuda dos rotarianos e de sua esposa Marina Fagundes Passos, fundou a CASA DA ESPERANÇA, para a reabilitação física das pessoas. João Passos tem sido, sempre, homenageado pelos rotarianos.


Ex-presidentes do Rotary Clube prestando homenagem à João Passos, ex-presidente e ex-governador do Rotary.

João Passos era casado com Marina Fagundes Passos e teve um único filho, o arquiteto Ronaldo Passos que deu continuidade à sua atividade profissional e foi o autor do projeto arquitetônico do CINE TEATRO NELLI, considerado o teatro com a melhor acústica da região e da CASA DA ESPERANÇA.

Dona Marina Passos, elegante e discreta, era voltada à cultura, tendo sido uma das fundadoras da ABL – Academia Botucatuense de Letras, como Membro Honorário.


Na foto acima, a Acadêmica Marina Fagundes Passos, entre os Acadêmicos Vanice de Andrade Camargo Alves e Hugo Pires, na Sessão Solene de instalação da ABL - Academia Botucatuense de Letras (17/03/1973).

Em 1972, no jornal “VANGUARDA DE BOTUCATU”, de 18 de agosto, escrevi o artigo “JOÃO E MARINA”, em homenagem ao casal amigo e destacando a importância da inauguração da CASA DA ESPERANÇA, em 12 de Abril de 1970.

João e Marina



Uma das casas mais românticas e simpáticas de que tenho lembrança de minha infância. Era uma casa branca com um maravilhoso jardim. Os donos, um casal amigo, tinham a alma pura e branca como a casa...
Hoje, a casa está sem seu dono; a rua leva o seu nome; a população guarda a sua imagem com indelével carinho...
Já se disse que para falar sobre uma cidade é preciso amá-la. Diria eu, complementando, que para falar sobre qualquer coisa é preciso, antes, sentir amor por ela. Ora, falar do Sr. João Passos e de D.Marina é muito fácil. Eles foram amor. Viveram com amor. E, com amor, construíram uma obra de amor: a CASA DA ESPERANÇA.
Eu, particularmente, sinto-me à vontade para falar desse magnífico casal. Nossas famílias foram muito amigas. Tivemos uma agradável convivência.
Várias vezes tratamos de assuntos de interesse da coletividade. Pois, a verdade é que o Sr. João foi um incansável batalhador da causa pública. Juntos assinamos convênio com a Caixa Econômica do Estado de São Paulo para a conclusão da sede esportiva do BTC. Tive a oportunidade de acompanhá-lo em sua luta para a conclusão e consolidação da CASA DA ESPERANÇA, obra que retrata a sua disposição para as grandes realizações.
Na ocasião, atestei que o Sr. João a todos cativava como um gentleman, assim, o Dr. Felício Castellano, Secretário da Promoção Social, o Dr. Nelson Marcondes do Amaral, Secretário Particular e o Prof. Francisco Carlos Sodero, Assessor (Governo Abreu Sodré) e representante do mesmo na inauguração da CASA DA ESPERANÇA, todos eles foram tomados de vivo entusiasmo por essa magnífica obra.
Junto com D. Marina ele concluiu a CASA DA ESPERANÇA. Os dois, sempre juntos, lideraram os rotarianos na consecução desse grande objetivo. Hoje, a CASA DA ESPERANÇA é uma realidade e um modelo de organização e uma certeza de que muitos seres humanos lá encontrarão a ajuda humana e a recuperação técnica de que necessitam.
O Sr. João Passos, chamado por Êle para seu prematuro porém merecido descanso. D. Marina, pelos dois, continua a construir com amor uma obra digna de amor com que agradecida, toda Botucatu lhes devota.
Eu fico feliz em ter podido conviver com ambos. Compreensivo, justo, paternal, amigo e honesto, o Sr. João Passos e D. Marina serão, sempre, para mim, o exemplo de como um casal viveu com amor e de como o amor os uniu, e de como fez com que dessem amor e construíssem obras de amor...
Perco-me em minhas lembranças... Aquela casa branca...O amor que constrói...Sr. João Passos e D. Marina... Um casal de alma pura e branca como a casa... A CASA DA ESPERANÇA.

HISTÓRICO DA CASA DA ESPERANÇA:

Conta D. Marina Fagundes Passos, os dois motivos mais fortes que levaram João Passos e ela a construir a Casa da Esperança:
1º “O meu pai, com 71 anos, teve um acidente vascular cerebral, ficando hemiplégico. Fui para Avaré para cuidar dele, pois tínhamos muita afinidade e ele me atendia muito. Comecei a fazer exercícios com ele, muitos por intuição e outros orientados pelo José Oscar Guimarães, quando o encontrava aqui. O restabelecimento foi rápido, e alguns meses após, meu pai já estava capacitado a comer sozinho, cortar carne, vestir-se, tomar banho, enfim auto-suficiente para uma vida quase normal. Comprovamos, assim, quanto pode um atendimento imediato, na maioria dos casos responsáveis por inválidos e infelizes”;
2º “Algumas visitas que fizemos às Casas da Esperança de Santos e Santo André, também fundações do Rotary, onde vimos rotarianos e senhoras abnegadamente trabalhando onde centenas de crianças e adultos se recuperavam de deficiências motoras. O João, na sua ânsia de servir, já havia, com outros companheiros, construído a sede esportiva do BTC, proporcionando à infância e à juventude botucatuense, meios para praticarem esporte, ocupações sadias, deixando assim de frequentarem snokers, o que era muito frequente e comum.”
“Depois, a construção da sede social do BTC, a sala de visitas de Botucatu. Chegou a vez de fazer alguma cousa para os menos afortunados, pelos incapacitados permanente ou temporariamente. Começou a luta pela Casa da Esperança. A compra do terreno, os estatutos, a construção. A luta tremenda para conseguir recursos financeiros. As campanhas encabeçados pelo João: bailes da cerveja, bazares da pechincha, feijoadas, campanha dos boizinhos, campanha para sócios contribuintes. Os primeiros donativos, 30 mil do Governo Sodré, a planta feita pelo Ronaldo (Passos) depois de várias visitas com o João e o Dr. Costa a outros Centros de Reabilitação. A compra de equipamentos, alguns aparelhos importados. Foram companheiros atuantes desde o primeiro dia: Luiz Chiaradia, como tesoureiro; Pedro Tôrres – depois Manoel Pinhão, como secretário; Dr. Costa, como vice-presidente e médico responsável. Inaugurada a 12 de abril de 1972, como comemoração do aniversário da cidade, contou com a presença do Secretário da Promoção Estadual – Dr. Castellano e do Professor Francisco Carlos Sodero, representante do Governador Sodré. Começou a funcionar a 29 de julho de 1970 e está cumprindo sua finalidade, dando atendimento a todos que dela necessitam, gratuitamente aos impossibilitados de pagar. Fornece lanches às crianças em tratamento e sopa aos pacientes que vem de cidades vizinhas, permanecendo muitas horas na Clínica. Está dando atendimento também aos pacientes encaminhados pela Faculdade de Ciências Médicas e Biológicas, que ainda não possue esse Departamento. Na sua curta história de menos de dois anos, conta com casos maravilhosos de reabilitação, como o da Rosângela Aliberti Bauer, aqui em Botucatu mesmo. Está muito bem equipada e organizada, funcionando com a colaboração voluntária dos srs. José Medaglia, Luiz Chiaradia e assistência médica e gratuita dos drs. Costa e Lunardi.”

NOTA: Artigo de 1972 (“Vanguarda”, de 18/08/72 - publicado no livro "Crônicas da Minha Cidade", de 1976) retrata o que foi essa empreitada social de grande sucesso. Hoje funciona, no local, a APAPE – Associação de Pais e Amigos das Pessoas Portadoras de Necessidades Especiais (Reabilitação, Habilitação, Estimulação, Intervenção e Inclusão Social).