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abril 05, 2014

Lavapés - Meu Rio Primeiro, Quim Marques

Lavapés: Meu 
Rio Primeiro...

(ilustração de Marco Antonio Spernega)

Botucatu tem gravado esse nome: Quim Marques!
Foi Professor, Artista Plástico, Diretor da “Cia de Teatro Chafariz” e do Grupo de Teatro Municipal, colaborou com jornais e revistas da cidade. A crônica abaixo foi publicada na PEABIRU, revista botucatuense de cultura, nº 15, de maio/junho de 1999. É uma preciosidade. Vale a leitura!

Lavapés - Meu Rio Primeiro

Quim Marques

                A chuva cai forte, pesada, densificando o ar com um som aconchegante, desses que nos fazem enrodilhar-nos no sofá, dentro de casa, bebendo chá ou outra bebida quente, acarinhando a alma.
         Lá fora, no fundo do quintal, além da cerca, um barulho-turbilhão.  O rio Lavapés passa, cheio e rápido, lavando seu leito, fuçando suas margens, suas mágoas, e carregando todo o lixo que lhe foi jogado na estação das secas.
         Do lado de cá, através da janela, contemplo-o, e sua sarabanda vai revolvendo também o meu rio de memórias.  E rápido, em movimento contrário, meus pensamentos-peixes, feito piracema, fuçam meu passado, para a desova de meus sentimentos.  Lá, onde as manhãs eram sempre luminosas e o lixo não corria ainda nas veias do homem.
         Então, me vejo outra vez menino, brincando em suas águas com outros meninos, quando ainda éramos nus e sabíamos andar pelo rio descalços e sem medo, empenhando-nos em descobrir os segredos do seu leito.
         Nós, crianças, o amávamos e o entendíamos, sempre atentos ao seu sonho de lonjuras e amplidões.
         Foi quando ganhei essa alma viajante, que busca sempre alcançar, num corredor contínuo e intenso, os mistérios e segredos do mar onde desemboca esse rio primeiro.
         Ah, meu rio de infância Lavapés!  Disseram-me que lhe deram esse nome pela mania que tinha de acolher os peregrinos das estradas, lavando-lhes os pés da poeira e do cansaço, num arremate de conforto para esses viajantes.
         Hoje, você está doente, cansado, sujo, enfurecido, e ruge, nas cheias, buscando arrancar de seu caminho a ingratidão que lhe jogam pelas margens!
         A vida é outra.  São outros os peregrinos que agora atravessam suas pontes, sentados em seus veículos, vaidosos de suas máquinas e surdos para a música-marulho de sua voz.
         Naqueles tempos, suas águas eram claras e límpidas.  Em seu curso viam-se animais e pássaros saciando a sede.
         Pelas manhãs, as lavadeiras, descendo tagarelas pelas ruas da cidade, vinham alvejar o tempo.  O rio, escutando o rumorejar das conversas, ficava sabendo da vida entretecida em nossa cidade.
         Às tardes, vinham os tropeiros encher os corotes de água, para seguir com seus animais o transporte de todos os rebanhos.
         E você cantava, alegremente, junto com os bem-te-vis, os fogo apagou, as saracuras e os quero-queros.  Pelas suas margens nasciam as glórias-da-manhã e os lírios-do-brejo, os hamerocális.  Os lambaris e os cascudos  dançavam, nos recantos ribeirinhos entre os juncos e as taboas.
         Época de muito respeito e gratidão.  O rio emprestava a todos da cidade a sua força, para mover os moinhos na feitura da farinha para o sagrado pão.  Lembro-me do moinho do salgueiro, o do Chicuta, e do som ritmado das correias da roda cantante movida pelas suas águas.  Da fumaça da farinha enevoando o moleiro, deixando-o empoado como um ator de comédia popular...
         Às suas margens aprendi não só a lição de sua generosidade, mas também a de liberdade e determinação.
         Em seu leito, exercitei-me para a arte, e construi asas para todas as naturezas de vôo.
         Uma pedra grande, como uma ilha plantada em suas águas, era minha casa, meu castelo, minha fortaleza, meu porto e meu barco, de onde me aventurava por rotas e continentes, particulares à minha mágica geografia, transcendendo-me além de todas as fronteiras.
         E o rio corria...
         Todos os quintais o visitavam em seu caminho.  E caminhando em seu leito, eu visitava todos os quintais, no delicioso risco de apanhar frutos proibidos, coniventes e dadivosos, que se deixavam apanhar pela infância irreverente.
         O rio era a própria vida cantante, embalando a vida de nossa cidade.
         Quando os dias estavam quentes, minha família e outras tantas da vizinhança aproveitávamos o frescor das tardes e sentávamos nos bancos sob as paineiras do antigo Chafariz da Boa Vista.  O perfume das flores, misturados aos lilases, rosas e azuis derramados do céu, naquele momento tão solene, de crepúsculo, nos faziam sentir plenos e em paz com o mundo.
         O rio fazia sonoplastia perfeita para esta cena.
         Nós, crianças, corríamos pelo gramado brincando de pega-pega.
         Os adultos faziam a prosa do cotidiano.
         Depois, cansados de tanto brincar, sentávamos nós, também, e fazíamos colares de flor-de-maravilha  para presentear nossas mães.

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         O rio nos permitia um jogo eterno de brincadeiras e atiçava nossa imaginação, permitindo o realizar todos os nossos sonhos.
         Através dele nos tornávamos aventureiros, piratas, bandeirantes, bandidos e mocinhos de cinema, engenheiros, peixes e animais, reis e povos de países imaginários.
         Às vezes o percorríamos todo, desde a sua nascente até as proximidades do Lageado.  Íamos demarcando pontos geográficos, com a terminologia própria de nossas observações: A Curva do Alemão, o Barranco da Figueira Grande, a Cachoeira da Chácara, A Represa do Moinho, o Barranco do Deslize, o Tanque do Salgueiro.  Lugares únicos e mágicos que ficaram para sempre nos caminhos da alma.  Com esses pontos inventávamos mapas e tesouros; simulando lutas e guerras para encontrá-los.  Forjávamos aventuras e nos sentíamos heróis.
         Os tesouros eram latas vazias de bolacha, repletas das sobras de colares e brincos de nossas tias; restos de vidros coloridos quebrados e cristais encontrados no fundo das águas do rio.
         O tempo passou... A cidade foi crescendo.  E o rio Lavapés foi ficando cada vez mais distante da infância.
         Poucas crianças chegavam às suas margens, proibidas pelos pais, que temiam a contaminação de seus filhos.  Ele se tornara depositário de todos os esgotos, de todos as sobras, lixo e entulho...
         Está doente e pobre.  Mal cheiroso.  Ameaçado.
         Falam em enterrá-lo.  Querem colocá-lo numa caixa, espremido entre duas vias marginais.
         É a vontade do progresso, de um progresso distanciado de valores humanos.
         Por que não construir novos logradouros, construindo a memória, onde as pessoas possam se encontrar nos fins de tarde, deixando um pouco o isolamento em que a televisão as coloca?
         Então, sentar novamente sob as árvores e ouvir o correr de suas águas despoluídas, a sua música quando passa.
         Ah, meu rio Lavapés!  Meu rio primeiro, meu rio de infância!  Quisera tanto vê-lo novamente alegre, forte e saudável!
         Não morra, rio!  Saiba que o amamos.
         Possa você, Lavapés, lavar ainda os pés, a alma e a memória de todos os que compartilham seu canto, seu rumo, sua beleza.
         Dá-nos olhos lavados de ver, de novo, sua vida resguardada e plena, a correr livre, agora, pelos caminhos do futuro.