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dezembro 26, 2015

só tu sabes que em alguma esquina de uma não lembrada cidade estará de pé um homem perplexo, pensando em ti, pensando teimosamente, docemente em ti, meu amor.”



“Sim, eu sou um desaparecido cuja esmaecida, inútil foto se publica num canto de uma página interior de jornal, eu sou o irreconhecível, irrecuperável desaparecido que não aparecerá mais nunca, mas só tu sabes que em alguma esquina de uma não lembrada cidade estará de pé um homem perplexo, pensando em ti, pensando teimosamente, docemente em ti, meu amor.”
                                                                 Rubem Braga


Nesta época de encontros e reencontros, de comemorações, de novos projetos de vida e de renovação dos sonhos e esperanças, nada melhor do que a leitura das crônicas de Rubem Braga. Nada melhor do que desfrutarmos dos textos daquele que é considerado o melhor cronista do Brasil.


Entre os estilos literários, a crônica requer os olhos bem abertos do cronista para o milagre do fugaz , do passageiro. Saber capturar os descuidos da vida, com seus dramas, o seu lirismo, o cenário do cotidiano com as pessoas e os fatos em sua fugacidade. O cronista, às vezes, registra em seus textos alguma permanência maior desses acontecimentos...



No Brasil, a atuação jornalística e literária de Rubem Braga está definitivamente marcada. Com ele, os amigos do conhecido e admirado “quarteto mineiro”, formado porHélio Pellegrino, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino. Amigo e colega de Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga pertenceu, também, à turma dos jovens boêmios da famosa “Taberna da Glória”, no Rio, composta por ele, por Mário de Andrade, Carlos Lacerda, Vinícius de Moraes, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Dorival Caymmi.

É considerado o maior cronista brasileiro. Escolhemos duas crônicas de Rubem Braga:
O DESAPARECIDO e RITA.

O DESAPARECIDO


Tarde fria, e então eu me sinto um daqueles velhos poetas de antigamente que sentiam frio na alma quando a tarde estava fria, e então eu sinto uma saudade muito grande, uma saudade de noivo, e penso em ti devagar, bem devagar, com um bem-querer tão certo e limpo, tão fundo e bom que parece que estou te embalando dentro de mim.

Ah, que vontade de escrever bobagens bem meigas, bobagens para todo mundo me achar ridículo e talvez alguém pensar que na verdade estou aproveitando uma crônica muito antiga num dia sem assunto, uma crônica de rapaz; e, entretanto, eu hoje não me sinto rapaz, apenas um menino, com o amor teimoso de um menino, o amor burro e comprido de um menino lírico. Olho-me ao espelho e percebo que estou envelhecendo rápida e definitivamente; com esses cabelos brancos parece que não vou morrer, apenas a minha imagem vai-se apagando, vou ficando menos nítido, estou parecendo um desses clichês sempre feitos com fotografias antigas que os jornais publicam de um desaparecido que a família procura em vão.

Sim, eu sou um desaparecido cuja esmaecida, inútil foto se publica num canto de uma página interior de jornal, eu sou o irreconhecível, irrecuperável desaparecido que não aparecerá mais nunca, mas só tu sabes que em alguma esquina de uma não lembrada cidade estará de pé um homem perplexo, pensando em ti, pensando teimosamente, docemente em ti, meu amor.

RITA

No meio da noite despertei sonhando com minha filha Rita. Eu a via nitidamente, na graça de seus cinco anos.

Seus cabelos castanhos – a fita azul – o nariz reto, correto, os olhos de água, o riso fino, engraçado, brusco...

Depois de um instante de seriedade; minha filha Rita encarando a vida sem medo, mas séria, com dignidade.

Rita ouvindo música; vendo campos, mares, montanhas; ouvindo de seu pai o pouco, o nada que ele sabe das coisas, mas pegando dele seu jeito de amar – sério, quieto, devagar.

Eu lhe traria cajus amarelos e vermelhos, seus olhos brilhariam de prazer. Eu lhe ensinaria a palavra cica, e também a amar os bichos tristes, a anta e a pequena cutia; e o córrego; e a nuvem tangida pela viração.

Minha filha Rita em meu sonho me sorria – com pena deste seu pai, que nunca a teve.

julho 05, 2013

Festa Literária de Paraty:
Graciliano Ramos
é o homenageado!

FLIP – FESTA LITERÁRIA
INTERNACIONAL DE PARATY

A FLIP – FESTA LITERÁRIA INTERNACIONAL DE PARATY começou no dia 03 de julho e irá até 07 de julho (domingo), a 11ª. edição da Festa Literária chega como um dos maiores Festivais de Literatura do Mundo. Tem em sua curadoria o jornalista Miguel Conde. A FLIP realiza cerca de 200 espaços culturais, incluindo debates, shows, exposições, oficinas, exibição de filmes e apresentações de escolas, entre outros: FlipMais, FlipZona e Flipinha.
A Imprensa Oficial “Graciliano Ramos" representa Alagoas na FLIP. A editora que participa pela primeira vez do evento, lançará três publicações, referentes ao escritor alagoano Graciliano Ramos, que será o grande homenageado do festival literário de 2011.

Graciliano Ramos foi romancista, jornalista e político e é um dos mais importantes escritores brasileiros. Nasceu em Quebrangulo, em 1892 e faleceu no Rio de Janeiro em 1953, aos 60 anos de idade. Foi prefeito municipal de Palmeira dos Índios (1927 -1930), em Alagoas, sendo através de seus relatórios administrativos que o escritor e editor Augusto Frederico Schmidt o descobriu e o incentivou a publicar, em 1933, seu livro Caetés. Graciliano foi diretor da Imprensa Oficial de Alagoas de 1930 a 1936, tendo sido também professor e Diretor da rede escolar. Foi preso pela Ditadura de Getúlio Vargas após a Intentona Comunista de 1935, mas incentivado por José Lins do Rêgo publicou, em 1936, o livro “Angústia”, considerado um de seus melhores trabalhos literários. Somente em 1946 é que ingressa no PCB (já havia a divisão entre PCB e PCdoB), sob o comando de Luís Carlos Prestes.

No ano em que se completa 60 anos da morte do autor de obras que se tornaram “clássicos” da literatura brasileira, como “Vidas Secas”, “Angústia” e “São Bernardo”, a editora da Imprensa Oficial “Graciliano Ramos” lança os títulos: Relatórios de Graciliano Ramos publicados no Diário Oficial (resgatados do acervo do Diário Oficial do Estado, publicado pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos), a biografia Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios (de Valdemar de Souza Lima), além de uma edição especial da revista Graciliano, que trata da vida e da obra do escritor vistos a partir de um olhar contemporâneo.


Os livros Relatórios de Graciliano Ramos publicados no Diário Oficial e Graciliano Ramos em Palmeira dos Índios integram uma série cujo tema é Graciliano Ramos. O projeto gráfico é assinado pelo designer Roger Ferraz.

GILBERTO GIL FEZ SHOW DE ABERTURA

Um dos mais importantes nomes da música brasileira, o cantor e compositor Gilberto Gil, ex-ministro da Cultura, fez o show de abertura da 11ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Concebido como um concerto de cordas, com arranjos intimistas, o show terá canções representativas dos 50 anos de carreira de Gil, além de releituras da obra de alguns de seus mestres musicais, como Dorival Caymmi, Tom Jobim e Jimmy Hendrix. Acompanham o compositor no show seu filho, Bem Gil, na guitarra, o violoncelista Jacques Morelembaum e o violinista Nicolas Krassik.
Apesar da desistência de dois escritores europeus Michel Houellebecq (francês) e Ove Knausgard (norueguês), os organizadores programaram mesas de debates sobre os últimos acontecimentos ocorridos com as Manifestações por todo o Brasil. Com estrutura e programação positiva e com muitas atrações, o FLIP/11 contará com a presença de Laerte, Ruy Castro e Ferreira Gullar.
Por oportuno, no link abaixo, temos o post sobre a FLIP de 2012, com as homenagens a Drummond e Jorge Amado. Vale a pena reler:
"Festa Literária de Paraty":
Drummond e Jorge Amado Homenageados
Leia aqui

dezembro 26, 2012

Rubem Braga:
o Melhor Cronista do Brasil!

“Sim, eu sou um desaparecido cuja esmaecida, inútil foto se publica num canto de uma página interior de jornal, eu sou o irreconhecível, irrecuperável desaparecido que não aparecerá mais nunca, mas só tu sabes que em alguma esquina de uma não lembrada cidade estará de pé um homem perplexo, pensando em ti, pensando teimosamente, docemente em ti, meu amor.”
                                                                 Rubem Braga


Nesta época de encontros e reencontros, de comemorações, de novos projetos de vida e de renovação dos sonhos e esperanças, nada melhor do que a leitura das crônicas de Rubem Braga. Nada melhor do que desfrutarmos dos textos daquele que é considerado o melhor cronista do Brasil.
Entre os estilos literários, a crônica requer os olhos bem abertos do cronista para o milagre do fugaz , do passageiro. Saber capturar os descuidos da vida, com seus dramas, o seu lirismo, o cenário do cotidiano com as pessoas e os fatos em sua fugacidade. O cronista, às vezes, registra em seus textos alguma permanência maior desses acontecimentos...


No Brasil, a atuação jornalística e literária de Rubem Braga está definitivamente marcada. Com ele, os amigos do conhecido e admirado “quarteto mineiro”, formado porHélio Pellegrino, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino. Amigo e colega de Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga pertenceu, também, à turma dos jovens boêmios da famosa “Taberna da Glória”, no Rio, composta por ele, por Mário de Andrade, Carlos Lacerda, Vinícius de Moraes, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Dorival Caymmi.

É considerado o maior cronista brasileiro. Escolhemos duas crônicas de Rubem Braga:
O DESAPARECIDO e RITA.

O DESAPARECIDO


Tarde fria, e então eu me sinto um daqueles velhos poetas de antigamente que sentiam frio na alma quando a tarde estava fria, e então eu sinto uma saudade muito grande, uma saudade de noivo, e penso em ti devagar, bem devagar, com um bem-querer tão certo e limpo, tão fundo e bom que parece que estou te embalando dentro de mim.

Ah, que vontade de escrever bobagens bem meigas, bobagens para todo mundo me achar ridículo e talvez alguém pensar que na verdade estou aproveitando uma crônica muito antiga num dia sem assunto, uma crônica de rapaz; e, entretanto, eu hoje não me sinto rapaz, apenas um menino, com o amor teimoso de um menino, o amor burro e comprido de um menino lírico. Olho-me ao espelho e percebo que estou envelhecendo rápida e definitivamente; com esses cabelos brancos parece que não vou morrer, apenas a minha imagem vai-se apagando, vou ficando menos nítido, estou parecendo um desses clichês sempre feitos com fotografias antigas que os jornais publicam de um desaparecido que a família procura em vão.

Sim, eu sou um desaparecido cuja esmaecida, inútil foto se publica num canto de uma página interior de jornal, eu sou o irreconhecível, irrecuperável desaparecido que não aparecerá mais nunca, mas só tu sabes que em alguma esquina de uma não lembrada cidade estará de pé um homem perplexo, pensando em ti, pensando teimosamente, docemente em ti, meu amor.

RITA

No meio da noite despertei sonhando com minha filha Rita. Eu a via nitidamente, na graça de seus cinco anos.

Seus cabelos castanhos – a fita azul – o nariz reto, correto, os olhos de água, o riso fino, engraçado, brusco...

Depois de um instante de seriedade; minha filha Rita encarando a vida sem medo, mas séria, com dignidade.

Rita ouvindo música; vendo campos, mares, montanhas; ouvindo de seu pai o pouco, o nada que ele sabe das coisas, mas pegando dele seu jeito de amar – sério, quieto, devagar.

Eu lhe traria cajus amarelos e vermelhos, seus olhos brilhariam de prazer. Eu lhe ensinaria a palavra cica, e também a amar os bichos tristes, a anta e a pequena cutia; e o córrego; e a nuvem tangida pela viração.

Minha filha Rita em meu sonho me sorria – com pena deste seu pai, que nunca a teve.

dezembro 09, 2011

Rubem Braga: o Melhor Cronista do Brasil!

Quando se comemora o Dia do Cronista, nada mais justo que trazermos algum texto daquele que é considerado o melhor cronista do Brasil: RUBEM BRAGA!



Entre os estilos literários, a crônica requer os olhos bem abertos do cronista para o milagre do fugaz , do passageiro. Saber capturar os descuidos da vida, com seus dramas, o seu lirismo, o cenário do cotidiano com as pessoas e os fatos em sua fugacidade. O cronista, às vezes, registra em seus textos alguma permanência maior desses acontecimentos...



No Brasil, a atuação jornalística e literária de Rubem Braga está definitivamente marcada. Com ele, os amigos do conhecido e admirado “quarteto mineiro”, formado por Hélio Pellegrino, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino. Amigo e colega de Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga pertenceu, também, à turma dos jovens boêmios da famosa “Taberna da Glória”, no Rio, composta por ele, por Mário de Andrade, Carlos Lacerda, Vinícius de Moraes, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Dorival Caymmi.

É considerado o maior cronista brasileiro. Escolhemos duas crônicas de Rubem Braga:
O DESAPARECIDO e RITA.

O DESAPARECIDO


Tarde fria, e então eu me sinto um daqueles velhos poetas de antigamente que sentiam frio na alma quando a tarde estava fria, e então eu sinto uma saudade muito grande, uma saudade de noivo, e penso em ti devagar, bem devagar, com um bem-querer tão certo e limpo, tão fundo e bom que parece que estou te embalando dentro de mim.

Ah, que vontade de escrever bobagens bem meigas, bobagens para todo mundo me achar ridículo e talvez alguém pensar que na verdade estou aproveitando uma crônica muito antiga num dia sem assunto, uma crônica de rapaz; e, entretanto, eu hoje não me sinto rapaz, apenas um menino, com o amor teimoso de um menino, o amor burro e comprido de um menino lírico. Olho-me ao espelho e percebo que estou envelhecendo rápida e definitivamente; com esses cabelos brancos parece que não vou morrer, apenas a minha imagem vai-se apagando, vou ficando menos nítido, estou parecendo um desses clichês sempre feitos com fotografias antigas que os jornais publicam de um desaparecido que a família procura em vão.

Sim, eu sou um desaparecido cuja esmaecida, inútil foto se publica num canto de uma página interior de jornal, eu sou o irreconhecível, irrecuperável desaparecido que não aparecerá mais nunca, mas só tu sabes que em alguma esquina de uma não lembrada cidade estará de pé um homem perplexo, pensando em ti, pensando teimosamente, docemente em ti, meu amor.

RITA

No meio da noite despertei sonhando com minha filha Rita. Eu a via nitidamente, na graça de seus cinco anos.

Seus cabelos castanhos – a fita azul – o nariz reto, correto, os olhos de água, o riso fino, engraçado, brusco...

Depois de um instante de seriedade; minha filha Rita encarando a vida sem medo, mas séria, com dignidade.

Rita ouvindo música; vendo campos, mares, montanhas; ouvindo de seu pai o pouco, o nada que ele sabe das coisas, mas pegando dele seu jeito de amar – sério, quieto, devagar.

Eu lhe traria cajus amarelos e vermelhos, seus olhos brilhariam de prazer. Eu lhe ensinaria a palavra cica, e também a amar os bichos tristes, a anta e a pequena cutia; e o córrego; e a nuvem tangida pela viração.

Minha filha Rita em meu sonho me sorria – com pena deste seu pai, que nunca a teve.