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junho 21, 2016

MISERICÓRDIA BOTUCATUENSE - REGISTRO HISTÓRICO.

Na capital paulista nós temos a Santa Casa de Misericórdia, tradicional e modelar estabelecimento hospitalar. E por todo o Estado de São Paulo e peloBrasil, temos as Santas Casas, hospitais erguidos e mantidos pela caridade das comunidades a que servem... Faço essas considerações, exatamente, pelo fato do hospital que vamos focalizar não levar o nome de Santa Casa: é tão somente Misericórdia Botucatuense.



Sempre me recordo que meu pai, médico, comentava que a Misericórdia não era uma Santa Casa, mas com certeza, era uma Casa Santa! Principalmente em seus primórdios, quando não havia a assistência médica organizada por parte do Governo Federal, funcionando os serviços de saúde pela mobilização da própria comunidade que contava com entidades filantrópicas, geralmente maçônicas. O Centenário da Misericórdia teve seu registro completo no livro "Memórias de Botucatu 2", publicado em 1993:



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Histórico Completo da Misericórdia Botucatuense/leia aqui

PARTE 2 – Continua o Histórico/leia aqui

PARTE 3 – Continua o Histórico/leia aqui

Pois bem, a Misericórdia Botucatuense foi fundada em 1893, passando a funcionar em 1901, graças ao médico baiano, Dr Antonio José da Costa Leite, que teve a brilhante iniciativa. Como único médico da cidade e da região, acompanhando o avanço das paralelas poderosas da Estrada de Ferro Sorocabana e contando com o apoio financeiro e a doação de terras de fazendeiros e ricos proprietários da cidade.

1ª. FASE DO HOSPITAL:
Dr Costa Leite obtém da matriarca Da. Isabel Franco de Arruda, rica proprietária vinda de Piracicaba, a doação 10 contos de réis. Dez contos de reis! Os fazendeiros Antonio Ferreira da Silva Veiga Russo e Domingos Soares de Barros doaram parte de suas propriedades para o hospital. Sendo que o Domingão (como era conhecido) doou propriedades como primeira fonte de renda da Misericórdia.


Com firme apoio da comunidade foi eleita a primeira Diretoria: Dr Costa Leite, Antonio Cesar, Amando do Amaral Barros, João Rodrigo e Floriano Simões. Como Provedor, o Juiz de Direito, Dr Luiz Ayres de Almeida Freitas. A planta do hospital foi de autoria do arquiteto Francisco B. Soler (espanhol).

Interessante o registro da presença, por dois anos, do médico e depois cientista famoso, Dr. Vital Brasil. Pertenceu ao quadro clínico da Misericórdiae, como secretário, elaborou algumas Atas. Com a existência de muitas fazendas, portanto de muitas matas e animais peçonhentos (cobras e escorpiões), começou a pesquisar e estudar o soro-antiofídico. Em, 1897, seguiu para a capital para atuar no recém fundado Instituto Butantã, onde se consagrou para a ciência.

2ª. FASE DO HOSPITAL:

Em 1937grave crise abalou o funcionamento da Misericórdia. O Corpo Clínico se afastou por desentendimento com a Administração. Após breve período sem prestar serviços, fechado, o hospital reabriu em uma iniciativa da Comissão de Diretores da Administração da Entidade Mantenedora. Foram convidados os srs. Emílio Peduti e o Dr Antônio Delmanto. O primeiro, empresário e capitalista bem sucedido e, o segundo, médico botucatuense com especialização na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, com estágio com o Dr Benedito Montenegro, considerado o melhor cirurgião da época e, posteriormente,Diretor da Faculdade de Medicina da USP.

Delmanto e Peduti em solenidade do Hospital

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As instalações da Misericórdia eram modestas. Era preciso ampliar. Moderno aparelho de Raio X, caríssimo à época e impossível de ser comprado com recurso próprio, foi uma oferta do Comendador Antonio Pereira Ignácio, fundador da Votorantim (avô do empresário Antonio Ermírio de Moraes). O industrial Antonio de Souza Noschese, doou a sala e todos os aparelhos de Ortopedia, a viúva do ex-prefeito Tonico de Barros doou toda a ala de ginecologia com vários quartos e equipamentos, que passou a ser a ala Maternidade “Nhazinha de Barros”. Enfim, com a mobilização do corpo clínico obteve-se as doações necessárias para o pleno funcionamento do hospital.



Em 1993, a grande comemoração do CENTENÁRIO DA MISERICÓRDIA BOTUCATUENSE. Uma vida onde a benemerência supriu, por décadas, a ausência do Estado no importante setor de prestação de serviços de saúde. Hoje, o hospital está consolidado, mesmo enfrentando as dificuldades que todos os hospitais do Brasil ainda enfrentam.

registro do histórico do Centenário da Misericórdia Botucatuense precisa ser divulgado como forma de se preservar a história e deixar exemplos da participação positiva e vitoriosa da comunidade organizada.

Prof. Arlindo Machado, da Escola de Comunicações e Artes da USP, sobre a importância dos registros históricos e dos livros de história, nos lembra que “...a biblioteca da Sorbonne, tida como a maior da Europacontava com um acervo, no seu início, de 1.228 livros.Hoje, as maiores bibliotecas do mundo abrigam cada uma por volta de dez milhões de volumes. E destaca a importância de registros, como o que estamos fazendo, dos fatos históricos:”...Bancos de Dados inteligentes deverão substituir os inexpressivos fichários atuais, novos softwares ajudarão na tarefa de localizar, selecionar e compreender a informação...deverão condenar ao esquecimento as antigas livrarias e remodelar o conceito de biblioteca...”

Esse é o futuro. É perfeitamente possível digitalizar coleções inteiras de jornais antigos. É viável, através de softwares específicos, catalogar toda uma biblioteca. Bancos de Dados podem preservar toda a Memória Histórica das cidades.

Repetimos: esse é o futuro! E estamos trazendo o registro importante de parte da construção histórica de uma cidade do interior do Estado de São Paulo, com a construção, pela força da comunidade organizada, de seu Hospital Benemérito.
Comentários quando da postagem do Centenário da Misericórdia:




requeri disse...
o seu texto possibilita históricas lembranças.
a rica história da cidade de santos é intimamente ligada à santa casa. não aquela que existe hj, na entrada da cidade.
santos e são vicente, cidades vizinhas, grudadas, dividiam tarefas, e uniram-se ainda mais por conta da santa casa que fora estabelecida em santos, por um gruppo de jesuítas, por volta de 1543. santos recebeu esse nome por causa da santa casa que servia às duas cidades. os habitantes de são vicente viajavam horas para serem atendidos na santa casa de misericórdia de todos os santos, que ficava no extremo oposto, da cidade vizinha instalada no outro extremo oposto em relação a são vicente, ou seja, na entrada do estuário, onde um trapixe servia de porto.
abreviar para "santos" ficou mais econômico. em lugar de dizer: vou à santa casa de misericórdia de todos os santos. ficava mais simples dizer: vou a santa casa de santos.

as santas sasas existem desde 1498. dona leonor, viúva de dom joão II, rei de portugal, determinou a fundação da santa casa de misericórdia de lisboa. daí, cada canto do planeta que portugal conquistava, era obrigado a receber uma santa casa. elas, as santas casas, eram as organizações mais fortes e emblemáticas da colonização portuguesa.

adoro essas histórias.

é isso.
requeri disse...
desculpa. o correto é trapiche. ato falho.
Anônimo disse...
Na cidade de Jaú foi a mesma coisa. A comunidade se uniu e construíram a Santa Casa, mantida por uma Entidade Filantrópica. Não havia assistência pública para a saúde era o salve-se quem puder. Foi a época da conquista desse imenso país. Em cada cidade, pelo menos no Estado de São Paulo, havia uma Santa Casa. Hoje, com todo o dinheiro arrecado pelo Governo Federal os hospitais mantidos pelas Santas Casas passam verdadeiro terror financeiro. O dinheiro do SUS é uma humilhação e está fazendo com que inúmeros hospitais fechem suas portas. É urgente uma nova política para a Saúde. É preciso que o SUS pague um valor justo pelos serviços prestados e que pague sem atraso. Ninguém está pedindo favores governamentais, mas apenas o que é devido pelos serviços prestados ao próprio Governo Federal. O valor de uma consulta ou de uma operação cesareana paga pelo SUS é uma vergonha! E o Congresso Nacional só trabalha alguns dias da semana e só pensa em tirar vantagens... (jair.castro66@yahoo.com.br)
Delmanto disse...
Esse relato de Requeri sobre Santos e a sua Santa Casa é uma aula de história. São as raízes da civilização portuguesa que viabilizaram a colonização da Terra Brasilis. O valor das Santas Casas foi de fundamental importância para a saúde das populações carentes das cidades que se formaram nos primórdios da Nação. Da mesma forma, o relato de Jair sobre a cidade de Jaú. Com certeza, por todo o Brasil, vamos encontrar depoimentos que enaltecem o papel dessas Casas de Benemerência. O Governo Federal precisa voltar a atenção para uma justa remuneração pelos serviços prestados pelas Santas Casas. O SUS precisa pagar em dia e dar o justo valor dos procedimentos médicos prestados. É compensador sentir que tema tão importante encontra a atenção de tantos brasileiros. O Brasil tem futuro. E o passado glorioso de nossas Santas Casas de Misericórdia é um orgulho de toda a Nação Brasileira.
requeri disse...
aaaaaaaaaaaah pagar bem e em dia, hj em dia?!?!?!?!?! ... fui lá praqueles tempos atrás, pra não ter que pensar em comentar sobre a condição da saúde no brasil.
Anônimo disse...
As Santas Casas de Misericórdia, desde o início, desempenham papel de destaque na assistência médica do país. No início, era entidades de benemerência que prestavam assistência aos desvalidos. Com a estruturação do serviço de previdência e de assistência médica no Brasil, as Santas Casas foram enquadradas como meros hospitais, mas não houve a contrapartida do Governo Federal. O pagamento pelos procedimentos, atos cirúrgicos, consultas e exames é ridículo. A luta pela sobrevivência continua mas é necessário que os nossos deputados federais voltem seus olhos para esse verdadeiro apostolado que ainda é exercido pelas Santas Casas. O governo do Estado de São Paulo tem dado regularmente ajuda às Santas Casas de Misericórdia, mas é insuficiente pois o déficit é grande. O Governo Federal é que precisa comparecer e ajudar. É sempre lembrado o trabalho dessas Entidades Beneficentes. A Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, tem entre suas finalidades que: “A Missão da Irmandade é exercer a caridade e a misericórdia para o socorro e a assistência aos enfermos, idosos, inválidos e desamparados, prestando serviço de assistência à saúde buscando atingir a excelência no atendimento. O objetivo é ser uma Instituição de excelência, reconhecida nacional e internacionalmente pela assistência, ensino e pesquisa na área da saúde” Vamos fazer um abaixo assinado, com milhões de assinaturas, para ver se o Congresso Nacional ou a presidente da República fiquem sensibilizados para a gravidade da situação.
(mariceiaoliveira@yahoo.com.br)

outubro 28, 2011

Os Trigêmeos de Botucatu


Em meados do século XX, mais precisamente em 1950, uma cidade de porte médio, no interior do Estado de São Paulo, Botucatu, passava por uma experiência muito bem sucedida: o nascimento de trigêmeos. E foi parto natural, com os três fetos nascidos com boa saúde e peso. É sabido que a influência de fatores maternos como a idade, história prévia ou familiar de gravidez gemelar, obesidade, multiparidade tem condicionado, ao longo do tempo, um aumento de gestações gemelares. E, naquela época, nem se pensava no uso de técnicas de reprodução assistida e inseminação artificial.

Em 1950, o maior hospital da região era a Misericórdia Botucatuense.
Nada de Planos de Saúde e, muito menos, estava estruturado o SUS – Serviço Único de Saúde (atendimento médico gratuito pelo Estado). Os indigentes eram atendidos em todo o Estado de São Paulo, pelas Santas Casas de Misericórdia, de forma gratuita e com o auxílio financeiro de cada comunidade/sede.

A MITOLOGIA DA GRAVIDEZ MULTIFETAL

Desde sempre, a gravidez multifetal, encantou e assustou. Nos povos mais primitivos era comum a prática do infanticídio. Os esquimós, os aborígenes australianos, os povos africanos e os nativos da América, cada um ao seu modo e de acordo com as crenças dominantes, praticaram o infanticídio em casos de gravidez gemelar ou múltipla. Era tido como um aviso de desgraças e de perigo.

Mas a História nos traz o registro de gêmeos que ficaram famosos. Desde a Bíblia, com os gêmeos Jacob e Esaú, filhos de Isaac e Rebeca. Na Mitologia Greco-Romana, temos Apolo e Artemis (Diana dos Romanos), filhos de Zeus. A Mitologia Latina herdou a essência dos mitos gregos, sendo o mais famoso o dos gêmeos Rômulo e Remo, filhos de Marte (Deus da Guerra) e que são tidos como os lendários fundadores de Roma. Consta que foram amamentados por uma loba, tendo sido encontrados pelo pastor Fáustulo.



E os gêmeos santos: São Cosme e São Damião. Eles teriam nascido na Arábia, sendo que teriam estudado Medicina na Síria, sempre atendendo gratuitamente. São Cosme (Acta) e São Damião (Passio) são santos populares da Igreja Católica e Ortodoxa e são, também, cultuados pelos ritos religiosos populares.

São Cosme e São Damião

Os Trigêmeos de Botucatu

Foi um grande acontecimento para cidade de Botucatu e toda a região, mesmo porque a parturiente viera, às pressas, da vizinha cidade de Bofete, para receber a assistência médica da Misericórdia Botucatuense. Era o principal centro médico para mais de trinta municípios. Naquele tempo não havia as facilidades da medicina moderna. Nada de ultrassonografia, ecocrafia e muito menos acompanhamento médico no período pré-natal.

Chegada de Bofete, a paciente Benedita Frudeles Gomes, sem recursos, foi encaminhada para a Enfermaria das Mulheres da Misericórdia. Pelo exagerado volume da barriga, foi logo chamado o Dr. Antônio Delmanto, Diretor Clínico do Hospital e médico cirurgião com especialidade em ginecologia e obstetrícia.diagnosticando no exame clínico o caso de gravidez multifetal, comprovou-se com o controle radiológico, uma gravidez trigemelar. O Diretor Clínico imediatamente fez remover a paciente para um quarto particular.



A notícia do parto natural de trigêmeos correu a região, chegando até a Capital, pelo inusitado acontecimento, através de parto natural e com plena saúde dos gêmeos. O Dr. Delmanto foi auxiliado pela parteira d. Amália Lorenzetti e enfermeiros. A última criança teve que ser extraída, tendo decorrido bem a intervenção obstétrica. As crianças, todas do sexo masculino, receberam os nomes de Luiz, João e Antônio, sendo os nomes em homenagens ao pai, ao genitor da parturiente e ao médico obstetra, os trigêmeos que pesavam respectivamente, Luiz, 1.950 grs.; João, 1.980 e Antônio, 2.100 grs. Os trigêmeos foram registrados por seu pai, Luiz Gomes (Registro Civil das Pessoas Naturais do Primeiro Subdistrito da Sede do Município e Comarca de Botucatu/ 01/03/1950).

As crianças ficaram sob os cuidados do médico pediatra daquele hospital, dr. Antônio Pires de Campos, que foi de uma grande dedicação, dispensando o máximo cuidado e a assistência mais perfeita possível. O dr. Pires, como era conhecido, gozava de grande prestígio em toda a região, por sua dedicação e por seu trabalho profissional.

O Dr. Delmanto entendeu que a paciente devia ter passado por uma estimulação espontânea de hormônios, o que gerou uma gravidez atípica, com produção de vários óvulos, resultando em vários fetos. Hoje, há a confirmação precoce do diagnóstico através de uma ecografia, desde as 6 semanas de gestação.

Nos últimos anos, a reprodução assistida, com fertilização in vitro, tem proporcionado um aumento de gravidez multifetal (gemelar ou múltipla). Verifica-se até um certo abuso nas clínicas especializadas com a utilização de óvulos e de espermas doados. Os mais difíceis e complicados casos de mulheres (com mais de 35 anos, com hipertensão e diabetes) com dificuldade para engravidar são resolvidos graças ao avanço da tecnologia médica e de um acompanhamento seguro no pré-natal.

OS TRIGÊMEOS DO DR. GUIMARÃES

O médico e historiador botucatuense, Dr Sebastião de Almeida Pinto, registrou um acontecimento inusitado em meados da década de 1930. Diz ele que o Dr. Guimarães “certa tarde recebeu um chamado telefônico de Pardinho. Era o Zico farmacêutico, convocando o Mestre para ir atender a um parto complicado. Como era de seu hábito, foi preparado para tudo. No Ford de bigodes do falecido Zé Cocada (José Sartori), veterano motorista, prático das estradas de bibocas e fazendas, fez a quatro léguas até à Capela. Chegado ao endereço indicado, foi encontrar uma parturiente, que se apresentava em curiosa situação. Tivera um filho, numa fazenda do município de Bofete. Era um feto pequenino, com um quilo e pouco de peso. Morrera logo após o nascimento.

Pouco depois, a mulher entrou novamente em trabalho de parto. Que não havia meio de terminar. Levaram-na então a Pardinho, de onde chamaram o dr. Guimarães. Este, ao primeiro exame, verificou a má posição do feto. E com sua longa prática, fez umas manobras, extraindo um bebezinho, que era um rato de pequeno. E estava morto. Mas não havia meio da coisa não terminar. Havia um terceiro nascituro. O experimentado obstetra pensou um pouco e temendo conseqüências desfavoráveis, resolveu trazer a mulher para Botucatu. Em aqui chegando, na Santa Casa, extraiu o terceiro feto, tão pequeno e débil, quanto os primeiros. Foi levado à incubadora, mas não resistiu muito tempo. Matou-o sua debilidade congênita, eis que a quantidade superou a qualidade.

Boa fora a prudência do veterano médico. A parturiente sofreu uma grande hemorragia post-partum que deu trabalho para ser dominada. Imagine se a complicação ocorresse num lugar sem recursos. Seria mais um morto a inutilizar uma estafante trabalheira. Dr. Guimarães comentou: “Pela primeira vez vi trigêmeos, nascidos em lugares diferentes. Um em Bofete, outro em Pardinho e outro em Botucatu. Caso pouco comum.”

REGISTRO HISTÓRICO. Abaixo, notícias sobre os Trigêmeos de Botucatu, na imprensa local:

Os Trigêmeos da Misericórdia Botucatuense
Transferida para um quarto particular a paciente e os três filhos

Internada na Enfermaria D. Isabel F. Arruda, a indigente Benedita Frudeles Gomes, esposa do sr. Luiz Gomes, residentes no Bairro do São Roque Velho, municipio de Bofete, foi diagnosticado com o controle radiológico, gravidez trigemelar.

Iniciado o trabalho de parto o dr. Antônio Delmanto, diretor clinico do Hospital fez remover imediatamente a paciente para um quarto particular. A assistência foi prestada pelo dr. Antonio Delmanto, auxiliado pela parteira d. Amalia Lorenzetti e enfermeiros. A última criança teve que ser extraída, tendo decorrido bem a intervenção obstétrica.
As crianças, todas do sexo masculino, receberam os nomes de Luiz, João e Antônio, sendo os últimos nomes em homenagens ao genitor da parturiente e ao médico obstetra.
Os trigêmeos estão sob os cuidados do
dr. Antônio Pires de Campos, médico pediatra da Misericórdia.
(
jornal “Democracia - 19/02/1950)


Estão passando bem os Trigêmeos
Os trigêmeos da Misericórdia Botucatuense, Luiz, João e Antonio, assim como a genitora, estão passando bem. As crianças estão sob os cuidados do médico pediatra daquele hospital, dr. Antônio Pires de Campos, que tem sido de uma grande dedicação, dispensando o máximo cuidado e a assistência mais perfeita possível.
As crianças apresentam os pesos seguintes: Luiz, 1.950 grs.; João, 1.980 e Antônio, 2.100 grs. Levando-se em conta a perda natural nos primeiros dias, pode-se deduzir que os mesmos apresentam bons pesos.
Da. Benedita Frudeles Gomes e os seus três filhos têm recebido muitos donativos em roupas. O sr. Amadeu Carmelo fez entrega de Cr$ 300,00, angariados na Vila dos Lavradores. ( jornal “Democracia” - 26/02/1950)

junho 25, 2011

Centenário da Misericórdia Botucatuense

Na capital paulista nós temos a Santa Casa de Misericórdia, tradicional e modelar estabelecimento hospitalar. E por todo o Estado de São Paulo e pelo Brasil, temos as Santas Casas, hospitais erguidos e mantidos pela caridade das comunidades a que servem... Faço essas considerações, exatamente, pelo fato do hospital que vamos focalizar não levar o nome de Santa Casa: é tão somente Misericórdia Botucatuense.



Sempre me recordo que meu pai, médico, comentava que a Misericórdia não era uma Santa Casa, mas com certeza, era uma Casa Santa! Principalmente em seus primórdios, quando não havia a assistência médica organizada por parte do Governo Federal, funcionando os serviços de saúde pela mobilização da própria comunidade que contava com entidades filantrópicas, geralmente maçônicas.

Histórico Completo da Misericórdia Botucatuense/leia aqui

PARTE 2 – Continua o Histórico/leia aqui

PARTE 3 – Continua o Histórico/leia aqui

Pois bem, a Misericórdia Botucatuense foi fundada em 1893, passando a funcionar em 1901, graças ao médico baiano, Dr Antonio José da Costa Leite, que teve a brilhante iniciativa. Como único médico da cidade e da região, acompanhando o avanço das paralelas poderosas da Estrada de Ferro Sorocabana e contando com o apoio financeiro e a doação de terras de fazendeiros e ricos proprietários da cidade.

1ª. FASE DO HOSPITAL:
O Dr Costa Leite obtém da matriarca Da. Isabel Franco de Arruda, rica proprietária vinda de Piracicaba, a doação 10 contos de réis. Dez contos de reis! Os fazendeiros Antonio Ferreira da Silva Veiga Russo e Domingos Soares de Barros doaram parte de suas propriedades para o hospital. Sendo que o Domingão (como era conhecido) doou propriedades como primeira fonte de renda da Misericórdia.


Com firme apoio da comunidade foi eleita a primeira Diretoria: Dr Costa Leite, Antonio Cesar, Amando do Amaral Barros, João Rodrigo e Floriano Simões. Como Provedor, o Juiz de Direito, Dr Luiz Ayres de Almeida Freitas. A planta do hospital foi de autoria do arquiteto Francisco B. Soler (espanhol).

Interessante o registro da presença, por dois anos, do médico e depois cientista famoso, Dr. Vital Brasil. Pertenceu ao quadro clínico da Misericórdia e, como secretário, elaborou algumas Atas. Com a existência de muitas fazendas, portanto de muitas matas e animais peçonhentos (cobras e escorpiões), começou a pesquisar e estudar o soro-antiofídico. Em, 1897, seguiu para a capital para atuar no recém fundado Instituto Butantã, onde se consagrou para a ciência.

2ª. FASE DO HOSPITAL:
Em 1937, grave crise abalou o funcionamento da Misericórdia. O Corpo Clínico se afastou por desentendimento com a Administração. Após breve período sem prestar serviços, fechado, o hospital reabriu em uma iniciativa da Comissão de Diretores da Administração da Entidade Mantenedora. Foram convidados os srs. Emílio Peduti e o Dr Antônio Delmanto. O primeiro, empresário e capitalista bem sucedido e, o segundo, médico botucatuense com especialização na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, com estágio com o Dr Benedito Montenegro, considerado o melhor cirurgião da época e, posteriormente, Diretor da Faculdade de Medicina da USP.
Delmanto e Peduti em solenidade do Hospital

As instalações da Misericórdia eram modestas. Era preciso ampliar. Moderno aparelho de Raio X, caríssimo à época e impossível de ser comprado com recurso próprio, foi uma oferta do Comendador Antonio Pereira Ignácio, fundador da Votorantim (avô do empresário Antonio Ermírio de Moraes). O industrial Antonio de Souza Noschese, doou a sala e todos os aparelhos de Ortopedia, a viúva do ex-prefeito Tonico de Barros doou toda a ala de ginecologia com vários quartos e equipamentos, que passou a ser a ala Maternidade “Nhazinha de Barros”. Enfim, com a mobilização do corpo clínico obteve-se as doações necessárias para o pleno funcionamento do hospital.



Em 1993, a grande comemoração do CENTENÁRIO DA MISERICÓRDIA BOTUCATUENSE. Uma vida onde a benemerência supriu, por décadas, a ausência do Estado no importante setor de prestação de serviços de saúde. Hoje, o hospital está consolidado, mesmo enfrentando as dificuldades que todos os hospitais do Brasil ainda enfrentam.

O registro do histórico do Centenário da Misericórdia Botucatuense precisa ser divulgado como forma de se preservar a história e deixar exemplos da participação positiva e vitoriosa da comunidade organizada.

O Prof. Arlindo Machado, da Escola de Comunicações e Artes da USP, sobre a importância dos registros históricos e dos livros de história, nos lembra que “...a biblioteca da Sorbonne, tida como a maior da Europa contava com um acervo, no seu início, de 1.228 livros. Hoje, as maiores bibliotecas do mundo abrigam cada uma por volta de dez milhões de volumes. E destaca a importância de registros, como o que estamos fazendo, dos fatos históricos:”...Bancos de Dados inteligentes deverão substituir os inexpressivos fichários atuais, novos softwares ajudarão na tarefa de localizar, selecionar e compreender a informação...deverão condenar ao esquecimento as antigas livrarias e remodelar o conceito de biblioteca...”

Esse é o futuro. É perfeitamente possível digitalizar coleções inteiras de jornais antigos. É viável, através de softwares específicos, catalogar toda uma biblioteca. Bancos de Dados podem preservar toda a Memória Histórica das cidades.

Repetimos: esse é o futuro! E estamos trazendo o registro importante de parte da construção histórica de uma cidade do interior do Estado de São Paulo, com a construção, pela força da comunidade organizada, de seu Hospital Benemérito.