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novembro 05, 2014

DIA NACIONAL DA CULTURA BRASILEIRA!



“Eia, senhores! Mocidade viril!
Inteligência brasileira!
Nobre nação esplorada!
Brasil de ontem e amanhã!
Daí-nos o de hoje, que nos falta”
Rui Barbosa

No Dia Nacional da Cultura – dia 5 de novembro! -que é comemorado no dia do nascimento de RUI BARBOSA, vamos procurar fazer um retrospecto da atuação desse grande brasileiro que soube dignificar o exercício da cidadania e representar – com competência e idealismo! – a ciência jurídica no Brasil. Foi um dos Fundadores da Academia Brasileira de Letras – ABL , tendo sido seu presidente de 1908 a 1919.

Rui Barbosa cursou a tradicional Faculdade de Direito do Largo de São Francisco -USP, berço de muitosestadistas, inclusive, de 9 ex-Presidentes da República:
Prudente de Moraes,
Campos Sales,
Rodrigues Alves,
Afonso Pena,
Venceslau Brás,
Delfim Moreira,
Artur Bernardes,
Washington Luís e
Jânio Quadros
.

De todos eles - todos brilhantes e patriotas modelares- a figura de Rui Barbosa se projeta em primeiro lugar, exatamente ele que por duas vezes disputou aPresidência da República sem conseguir o seu intento, vencido pela velha oligarquia política que manipulava oscurrais eleitorais fabricava os dirigentes. Hoje, poucos haverão de se lembrar dos que foram eleitos na“disputa” presidencial com Rui Barbosa. Por outro lado, toda a Nação Brasileira o cultua e tem Rui Barbosa como orgulho da Pátria e exemplo às novas gerações!


Iremos abordar a vida desse grande brasileiro por 5 aspectos que lhe caracterizaram a trajetória de homem público: o político, o jurista, o jornalista, o diplomata e o exilado.

Nascido aos 5 dias do mês de novembro de 1849, na cidade de Salvador, Bahia, realizou seus estudos no Ginásio Baiano e, ao depois, matriculou-se na Faculdade de Direito de Recife, transferindo-se, posteriormente, para a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo.

O POLÍTICO



Na tradicional Faculdade do Largo de São Francisco(USP) é que teve início a sua militância política : a 13 de agosto de 1868, pronunciava seuprimeiro discurso político para homenagear José Bonifácio “a encarnação mais fascinadora das idéias liberais”, que vinha assumir a sua cátedra de mestre. A partir daí, nunca mais ficou ausente da vida pública brasileira. Em 1868, ainda estudante, Rui atira-se à campanha abolicionista e participa de debates na Loja América (loja maçônica que reunia o pessoal ligado à Faculdade de Direito, juristas, advogados e universitários), fazendo com que seu ponto de vista a favor de que todos os membros daquela Loja libertassem o ventre de suas escravas, prevalecesse. Com a República, passa a ter destaque especial na tribuna do Senado por longos anos. É considerado oEstadista da República, assim como Joaquim Nabuco foi considerado o Estadista do Império. Na verdade,Rui não fora um republicano. É ele mesmo quem nos diz:

“Sinceramente monarquista era eu em 1889. Não por admitir pre-excelências formais desse ao outro sistema de governo; mas porque a monarquia parlamentar,lealmente observada, encerra em si todas as virtudes preconizadas, sem o grande mal da República, o seu mal inevitável. O mal gravíssimo e inevitável das instituições republicanas consiste em deixar exposto à ilimitada concorrência das ambições menos dignas o primeiro lugar do Estado e, desta sorte, o condenar a ser ocupado, em regra, pela mediocridade”.

Rui, sem ter sido um republicano foi, no entanto, o homem que fez a República. O destino traçou-lhe essa tarefa...

Seus artigos no Diário de Notícias, fendiam o arcabouço da monarquia. E ele não pregava a República. Logo após a Proclamação da República, Rui Barbosa é convocado por Deodoro.. Marechal o designa como Ministro da Fazenda e lhe entrega a tarefa de dar forma jurídica ao novo sistema de governo. Na condição de Ministro da Fazenda e Vice-Chefe de Govêrno, Rui redigiu o decreto nº 1 da República,chamado de “providencial”, porque em seu artigo 1º, salvara a unidade nacional que o Império realizara:

a bandeira da federação passava, nesse dia, das colunas do Diário de Notícias, pela mão de Rui, para a letra de decreto que proclamava a República Federativa dos Estados Unidos do Brasil.” Naquela fase memorável da história do nosso país, só um homem de cultura e de capacidade acima do comum poderia salvar o Brasil da anarquia.

É dele o projeto da Constituição de 24 de fevereiro de 1891Redigiu-a em 2 dias, de seu próprio punho. Modelou-a com carinho, deu-lhe formas que o seu gênio lhe inspirara, caprichou na confecção dos seus contornos, lapidou-a com a beleza incomparável da sua arte de mestre da língua e da pureza de estilo. Para fazê-la, Rui Barbosa buscou o modêlo norte-americano. Achou que nesse modêlo estava o ideal para o Brasil, de acordo com nossa índole e a nossa formação democráticaO Govêrno da Lei. A impessoalidade da Lei acima dos homens. Essa foi a linha mestra da construção de Rui : o seu projeto é o de uma República organizada pela Lei e da Lei interpretada pelos Tribunais.

Com o passar dos tempos, o próprio Rui passa apropugnar pela alteração constitucional, de acordo com as mudanças sociais que se verificavam em todo mundo. Já em 1919, em sua campanha presidencial, Rui Barbosa reconhecia:

“As nossas constituições têm ainda por norma as declarações de direitos consagrados no século XVII. Suas fórmulas já não correspondem exatamente àconsciência jurídica do universoA inflexibilidade individualista dessas cartas, imortais mas não imutáveis, alguma coisa tem que ceder (quando já lhes passa pelo quadrante o sol do seu terceiro século) ao sopro da socialização que agita o mundo.”

Candidato duas vezes à Presidência da República (1909 e em 1919), por dois movimentos de opinião nacional, um contra as ditaduras militares, outrocontra as oligarquias civis, em ambas ocasiões levou ao seio da população, nas capitais dos grandes estados, a sua proposta, a sua bandeira. A luta não fora improdutiva : ficara a semente. A idéia de um país moderno, sob o império da Lei, e de uma democracia vigorosa e de um povo livre, ficara gravada na memória cívica do brasileiro.

O JURISTA


Formado a 28 de outubro de 1870, Rui inicia a sua carreira ao lado do Conselheiro Souza Dantas. É o próprio Rui que se auto-define como advogado :
“Um invencível horror à violência, uma sede insaciável de justiça constitui o fundo de minha índole e tem modelado irresistivelmente a minha vida inteira.Simpatizei sempre com os fracos, respeitei sempre os vencidos, patrocinei sempre os oprimidos. Minha estréia na tribuna popular, ainda estudante, foi a defesa de um escravo contra o senhor. Minha estréia natribuna forense foi a desafronta da honra de uma inocente filha do povo contra a lascívia opulente de um mandão. Minha estréia na tribuna parlamentar foio patrocínio da eleição de um conservador contra o partido liberal em que eu militava.”


O JORNALISTA



Ainda estudante fundou com Américo de Campos , Luís Gama, Elói Benedito Ottoni e Bernardino Pamplona, o Radical Paulistano : era a campanha abolicionista. Depois o Diário da Bahia, o Jornal do Comércio, O País, até que em 1889 - ano da República - funda o famoso Diário de Notícias. Seus artigos no Diário de Notícias foram reconhecidos como peça básica para a derrocada da monarquia. Sofreu o exílio e, na provação, escreve matérias jornalísticas de fundo liberal democrático. Funda a Imprensa, milita em outros órgãos jornalísticos de projeção nacional. Era o jornalista na acepção da palavraDefensor dasliberdades e crítico implacável dos poderosos que atropelavam os direitos humanos e conspurcavam a democracia. Foi um lutador e deixou marcada a sua presença e as lições de patriotismo.


O DIPLOMATA



Em 1907, o Barão do Rio Branco convida Rui para que aceite a Chefia da Delegação Brasileira à 2ª Conferência de Paz, em Haia, Holanda. Rui hesita em aceitar, mas acaba atendendo aos apelos feitos. Rui chegou aHaia em junho de 1907, sendo nomeado, por indicação daRússia, Presidente Honorário da 1ª Comissão. Sua atuação surpreendeu os representantes das grandes nações.Rui defendia os pequenos países e propugnava pela igualdade de tratamento entre as nações. Discursava em perfeito inglês e em inatacável francês. O brasileiro, pequeno de estatura, surpreendia o mundo pela sua cultura e pelo seu preparo.

De sua atuação, dizia W. Stead, in “O Brasil em Haia” : “As duas forças pessoais da Conferência foram o Barão Marshall, da Alemanha, e o Dr. Barbosa, do Brasil. Atrás do Barão Marshall, porém, se erguia todo o poder militar do Império Germânico... Atrás do Dr. Barbosaestava apenas a longínqua república desconhecida, com um exército incapaz de qualquer movimento militar e uma esquadra por existir. Todavia, ao acabar aConferência, Dr. Barbosa pesava mais (counted for more) do que o Barão MarshallMaior triunfo pessoal, na recente conferência, nenhum dos seus membros o obteve tanto mais notável foi quando o alcançou ele por si só, sem nenhum auxílio estranho.”

Estava criada a imagem do "Águia de Haia". Logo após o seu regresso, era convidado pela Universidade de Yale (EUA) para realizar uma série de conferências. Em 1914, é convidado a ser Embaixador Especial do Brasil às comemorações do centenário de Tucumán. A 14 de julho de 1914, recebe o Diploma de Membro Honorário da Faculdade de Direito e Ciências de Buenos Aires.

O EXILADO.



Já nos primeiros anos de República, um clima político tumultuado, que foram marcados pela tentativa deDeodoro da Fonseca querendo a dissolução do Congresso e poderes especiais. Rui Barbosa passaria para a oposição ao governo federal e temendo por sua própria vida, vê-se compelido ao exílio no exterior, primeiramente em Buenos Aires, depois em Lisboa e Paris, e, finalmente, em Londres, onde residirá entre 1894 e 1895. De lá, escreve as famosas “Cartas da Inglaterra”,escritas sob a forma de correspondência para o Jornal do Commercio, entre 1894 e 1895“Cartas de Inglaterra” são a mais rica expressão do pensamento
político e filosófico de Rui Barbosa.
 Em uma delas, dá a definição do que entendia por militarismo:

“Entre as instituições militares e o militarismo vai, em substância, o
abismo de uma contradição radical. O militarismo, governo da nação pela
espada,
 arruína as instituições militares, subalternidade legal da espada à
nação. 
As instituições militares organizam juridicamente a força. O
militarismo a desorganiza. O militarismo está para o exército, como o
fanatismo para a religião, como o charlatanismo para a ciência, como o
industrialismo para a indústria, como o mercantilismo para o comércio,
como o cesarismo para a realeza, como o demagogismo para a
democracia, como o absolutismo para a ordem, como o egoísmo para o
eu. 
Elas são a regra; ele, o desmantelo, o solapamento, a aluição dessa
defesa, 
encarecida nos orçamentos, mas reduzida, na sua expressão real,
a um simulacro”.


Esse é o homem.

Esse é o mito: Rui Barbosa.

Impossível citar tudo o que se tem de registro da atuação patriótica e brilhante de Rui nos destinos do Brasil.1º de março de 1923, morria o maior de todos os brasileiros.
Hoje, a nossa pequena homenagem. Que fique o seu exemplo. Que fique a sua atuação cívica. Que fique o seu idealismo. Que fique o seu patriotismo!

Nota: “As ilustrações de Rui Barbosa são de Armando Pacheco, para o livro “História da Vida de Rui Barbosa”, de Américo Palha, Distribuidora Record, 1963".







Fundação Casa de Rui Barbosa


Fundação Casa de Rui Barbosa é uma instituição subordinada ao Ministério da Cultura do Brasil, que leva o nome do ex-ministro da fazendo Rui Barbosa,funcionando na casa onde morava no Rio de Janeiro, quando de sua atuação político-intelectual.





Destina-se ao fomento da produção intelectual, consulta bibliográfica e preservação memorial. A fundação oferece um espaço reservado ao trabalho intelectual, à consulta de livros e documentos e à preservação da memória brasileira, com estudos e pesquisas (estudos ruianos, de política cultural, história, direito e filologia) e em cultura brasileira em geral.
Telefone: (21)3289-4600.
oferecem horários próprios:
:: Jardim: 2ª a 6ª feira, das 8 às 18h; sábados e domingos, das 9 às 18h.
:: Museu: de 3ª a 6ª feira, das 9 às 17h30min. Na última 3ª feira do mês aberto até às 20h Aos sábados, domingos e feriados das 14 às 18h, com a última entrada 30 minutos antes do fechamento. A taxa de ingresso é R$ 2,00. Menores de 10 anos e maiores de 65 anos não pagam ingresso. Entrada franca aos domingos. Veja o calendário de funcionamento do museu.
:: Biblioteca e arquivos: 2ª a 6ª feira, das 9 às 18h, com a última entrada 45 minutos antes do fechamento
:: Biblioteca infantil: 2ª a 6ª feira, das 9h30 às 12h e das 14 às 17h, sendo as 5as feiras reservadas para atendimento a escolas.




maio 28, 2013

Rio homenageia a memória de
Millôr Fernandes!

RIO HOMENAGEIA MILLÔR FERNANDES!!!
Deu no G1
"O PENSADOR DE IPANEMA"
Filho de Millôr, Ivan Fernandes (de branco), e irmão, Hélio, aplaudem a homenagem ao lado da atriz Fernanda Montenegro (Foto: Beth Santos / Prefeitura do Rio)

Millôr Fernandes/Biografia/ leia aqui
Foi inaugurado no fim da tarde desta segunda-feira (27), no calçadão entre as praias do Diabo e do Arpoador, na Zona Sul do Rio, um banco panorâmico em homenagem ao escritor, desenhista e jornalista Millôr Fernandes, morto em março de 2012 aos 88 anos, após uma parada cardíaca.

O escritor sempre dizia, contam os amigos, que se um dia fosse homenageado, poderia ser com um banquinho de onde fosse possível ver o pôr do sol. É por isso que, bem no horário do pôr do sol, o banquinho com vista para o mar de Ipanema e Leblon foi inaugurado. O local escolhido desde 2012 é conhecido como o Largo do Millôr.

O projeto, do urbanista Jaime Lerner, dá a impressão de que o banco flutua. Um perfil do escritor foi desenhado por Chico Caruso e apelidado de “O Pensador de Ipanema”. Além de Caruso, estiveram presentes à inauguração o filho de Millôr (1923 – 2012), Ivan Fernandes, e o irmão, Hélio Fernandes, além de amigos como a atriz Fernanda Montenegro.

“Tantos anos de convívio de amizade, de produtividade também. É uma hora bonita. E um dia vai ter um pôr do sol. E a gente vai vir aqui só pra ver o pôr do sol ao lado do Millôr”, disse Fernanda, em entrevista ao RJTV.
(Tribuna da Imprensa – 27/05/2013)

janeiro 11, 2013

Centenário de Rubem Braga
- 1913/2013 -

“Sim, eu sou um desaparecido cuja esmaecida, inútil foto se publica num canto de uma página interior de jornal, eu sou o irreconhecível, irrecuperável desaparecido que não aparecerá mais nunca, mas só tu sabes que em alguma esquina de uma não lembrada cidade estará de pé um homem perplexo, pensando em ti, pensando teimosamente, docemente em ti, meu amor.” - Rubem Braga -


retrato de Rubem Braga
por Candido Portinari/1953
O centenário de Rubem Braga (12/01/1913- 19/12/1990), o grande cronista brasileiro, começa a ser comemorado hoje, em Cachoeiro de Itapemirim, ES, cidade natal do escritor, com a abertura da IV Bienal Rubem Braga.
Ainda pelas comemorações do seu Centenário, teremos pela José Olympio, a publicação de Retratos parisienses, com 31 textos, inéditos em livro, que retratam personalidades como Matisse e Sartre, escritas no período em que Rubem Braga foi correspondente em Paris. Pela Editora Record sairá a edição especial de 200 crônicas escolhidas, um dos títulos mais vendidos do autor, e a editora lançará também Rubem Braga – O lavrador de Ipanema, seleção de textos que revelam a paixão do escritor pela natureza.
Em sua biografia, Rubem Braga tem importante passagem pela edição de livros. Juntamente com Fernando Sabino foi proprietário da Editora do Autor e, posteriormente, também com Fernando Sabino, da Editora Sabiá. Criterioso, publicava os melhores, entre eles, Clarice Lispector.

retrato de Rubem Braga
por Dorival Caymmi/1943

O cronista Rubem Braga sempre foi o meu escritor preferido. Sempre o considerei o “poeta da prosa” brasileira. Desde os anos sessenta, pesquisando e lendo tudo que era publicado por ele, nos jornais e nas revistas. O estilo literário da crônica é o ideal para que o iniciante comece a gostar de ler livros. Fiz assim com meus filhos. Primeiras leituras com Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Carlos Drummond de Andrade. Nos anos 80/90, tinha uma coleção de livros chamada “Para Gostar de Ler”, que era excelente. Gostosa de ler, com boas histórias, não muito longas, abordando o lado cômico, melancólico, irônico e poético do cotidiano. Além de ser uma leitura agradável, despertava no jovem, no aluno o gosto pelos livros.

Rubem Braga e o cantor Roberto Carlos são os filhos mais famosos de Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo. É formado em Direito, sendo que estudou no Rio e em Minas, onde se formou e iniciou a sua carreira de jornalista depois de formado. Trabalhou em jornais de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Porto Alegre, São Paulo e Recife. Foi correspondente de guerra (durante a 2ª. Grande Guerra Mundial), representando o Diário Carioca. Durante o governo do presidente Jânio Quadros foi convocado para representar o Brasil no exterior. Assim, foi Chefe do Escritório Comercial do Brasil no Chile e foi Embaixador do Brasil no Marrocos.
Márcio Moreira Alves, Rubem Braga e Jânio Quadros com Che Guevara,
em visita a Havana/Cuba, em 1960.
- Foto: Arquivo Luiz Alberto Moniz Bandeira -

Lança seu primeiro livro, em 1936. Publica uma série de livros de sucesso. Como poeta fez parte da “Antologia dos Poetas Bissextos Contemporâneos”, organizada por Manuel Bandeira. O livro “200 Crônicas Escolhidas”, foi publicado com a supervisão de Fernando Sabino que selecionou as crônicas. E o CD, com a voz de Edson Celulari, com onze crônicas de Rubem Braga, também surgiu desse livro.

Na apresentação do CD, a escritora Marina Colasanti deixou uma imagem perfeita de Rubem Braga:
“Do meu terraço, vejo o terraço de Rubem Braga. As plantas que ele plantou já são floresta. Que eu olho sempre como se ele ainda estivesse ali, diante da máquina, desdobrando o fio sutil das suas crônicas. Ninguém escreveu tão bem sobre os pequenos momentos, as mulheres que não possuem, o olhar que se pousa sobre o outro, o doce trânsito do imaginário. Olho o terraço e escuto: na voz de Celulari, o sabiá da crônica volta a cantar.”
Pura poesia em prosa.
O melhor cronista do Brasil!

Nesta época de encontros e reencontros, de comemorações, de novos projetos de vida e de renovação dos sonhos e esperanças, nada melhor do que a leitura das crônicas de Rubem Braga. Nada melhor do que desfrutarmos dos textos daquele que é considerado o melhor cronista do Brasil.
Entre os estilos literários, a crônica requer os olhos bem abertos do cronista para o milagre do fugaz , do passageiro. Saber capturar os descuidos da vida, com seus dramas, o seu lirismo, o cenário do cotidiano com as pessoas e os fatos em sua fugacidade. O cronista, às vezes, registra em seus textos alguma permanência maior desses acontecimentos...


No Brasil, a atuação jornalística e literária de Rubem Braga está definitivamente marcada. Com ele, os amigos do conhecido e admirado “quarteto mineiro”, formado porHélio Pellegrino, Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino. Amigo e colega de Carlos Drummond de Andrade, Rubem Braga pertenceu, também, à turma dos jovens boêmios da famosa “Taberna da Glória”, no Rio, composta por ele, por Mário de Andrade, Carlos Lacerda, Vinícius de Moraes, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Dorival Caymmi.

É considerado o maior cronista brasileiro. Escolhemos três crônicas de Rubem Braga:
O DESAPARECIDO, RITA e DESPEDIDA:

O DESAPARECIDO


Tarde fria, e então eu me sinto um daqueles velhos poetas de antigamente que sentiam frio na alma quando a tarde estava fria, e então eu sinto uma saudade muito grande, uma saudade de noivo, e penso em ti devagar, bem devagar, com um bem-querer tão certo e limpo, tão fundo e bom que parece que estou te embalando dentro de mim.

Ah, que vontade de escrever bobagens bem meigas, bobagens para todo mundo me achar ridículo e talvez alguém pensar que na verdade estou aproveitando uma crônica muito antiga num dia sem assunto, uma crônica de rapaz; e, entretanto, eu hoje não me sinto rapaz, apenas um menino, com o amor teimoso de um menino, o amor burro e comprido de um menino lírico. Olho-me ao espelho e percebo que estou envelhecendo rápida e definitivamente; com esses cabelos brancos parece que não vou morrer, apenas a minha imagem vai-se apagando, vou ficando menos nítido, estou parecendo um desses clichês sempre feitos com fotografias antigas que os jornais publicam de um desaparecido que a família procura em vão.

Sim, eu sou um desaparecido cuja esmaecida, inútil foto se publica num canto de uma página interior de jornal, eu sou o irreconhecível, irrecuperável desaparecido que não aparecerá mais nunca, mas só tu sabes que em alguma esquina de uma não lembrada cidade estará de pé um homem perplexo, pensando em ti, pensando teimosamente, docemente em ti, meu amor.

RITA

No meio da noite despertei sonhando com minha filha Rita. Eu a via nitidamente, na graça de seus cinco anos.

Seus cabelos castanhos – a fita azul – o nariz reto, correto, os olhos de água, o riso fino, engraçado, brusco...

Depois de um instante de seriedade; minha filha Rita encarando a vida sem medo, mas séria, com dignidade.

Rita ouvindo música; vendo campos, mares, montanhas; ouvindo de seu pai o pouco, o nada que ele sabe das coisas, mas pegando dele seu jeito de amar – sério, quieto, devagar.

Eu lhe traria cajus amarelos e vermelhos, seus olhos brilhariam de prazer. Eu lhe ensinaria a palavra cica, e também a amar os bichos tristes, a anta e a pequena cutia; e o córrego; e a nuvem tangida pela viração.

Minha filha Rita em meu sonho me sorria – com pena deste seu pai, que nunca a teve.


Despedida
E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste. Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim, uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval — uma pessoa se perde da outra, procura-a por um instante e depois adere a qualquer cordão. É melhor para os amantes pensar que a última vez que se encontraram se amaram muito — depois apenas aconteceu que não se encontraram mais. Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado — sem glória nem humilhação.

Creio que será permitido guardar uma leve tristeza, e também uma lembrança boa; que não será proibido confessar que às vezes se tem saudades; nem será odioso dizer que a separação ao mesmo tempo nos traz um inexplicável sentimento de alívio, e de sossego; e um indefinível remorso; e um recôndito despeito.

E que houve momentos perfeitos que passaram, mas não se perderam, porque ficaram em nossa vida; que a lembrança deles nos faz sentir maior a nossa solidão; mas que essa solidão ficou menos infeliz: que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho?

 Talvez não mereçamos imaginar que haverá outros verões; se eles vierem, nós os receberemos obedientes como as cigarras e as paineiras — com flores e cantos. O inverno — te lembras — nos maltratou; não havia flores, não havia mar, e fomos sacudidos de um lado para outro como dois bonecos na mão de um titeriteiro inábil.

Ah, talvez valesse a pena dizer que houve um telefonema que não pôde haver; entretanto, é possível que não adiantasse nada. Para que explicações? Esqueçamos as pequenas coisas mortificantes; o silêncio torna tudo menos penoso; lembremos apenas as coisas douradas e digamos apenas a pequena palavra: adeus.

A pequena palavra que se alonga como um canto de cigarra perdido numa tarde de domingo.
(Rubem Braga, do livro "A Traição das Elegantes", Editora Sabiá – Rio de Janeiro, 1967, pág. 83)

novembro 22, 2012

Hernâni Donato:
o grande Escritor...
Saudades!

Faleceu, hoje, na capital paulista, o grande escritor, historiador e jornalista HERNÂNI DONATO (1922 – 2012). Na Academia Paulista de Letras formou o “trio botucatuense”, com Alceu Maynard Araújo e Francisco Marins. Com seu colega de estudos na adolescência, Francisco Marins, ocupou por duas gestões a Secretaria da APL, com Francisco Marins na Presidência. Pertenceu a inúmeras Academias de Letras do Brasil e do Exterior. Era PRESIDENTE EMÉRITO DO INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DE SÃO PAULO.
Foi autor de filmes que marcaram o início do cinema nacional, como Chão Bruto e Selva Trágica. Com atuação profissional na imprensa paulistana, atuou na Editora Abril e na Editora Melhoramentos. Com extensa lista de livros publicados, inclusive traduções dos clássicos da literatura, como a “Divina Comédia, de Dante”. Para sua terra natal, Botucatu, deixou o “Achegas para a História de Botucatu” – verdadeira bíblia para os botucatuenses que lá encontram, em detalhes, o histórico da formação e evolução de seu município.

(ilustração de Vinicio Aloise)

Foi um incentivador da juventude. Em 1970, ao lançar o jornal “Vanguarda de Botucatu”, Hernâni escreveu um artigo mágico a impulsionar os jovens participantes daquela iniciativa jornalística. Escreveu outro artigo quando o jornal completou 10 anos. E sempre, em todas as edições da revista botucatuense de cultura, a PEABIRU, fazia questão de deixar a sua mensagem, sempre positiva. O seu primeiro artigo merece ser lido:

"Um Voto Esperançoso...Mais Um
Rapazes: o diretor do jornal não brinca em serviço.  Chegou e mandou: Vanguarda quer inovar.  Sacuda a nossa moçada.  Dê-lhe um plá dosado para os males de Botucatu.
Bom, não tenho receituário para uso dos moços que insistem em abrir o seu caminho dinamitando a estradinha aberta pelos mais velhos.  Mas concordo em que para Botucatu, o momento, mais do que nunca, é o de balançar a roseira.  Mais do que nunca porque ela goza de privilégio único de receber, de golpe, o enriquecimento do sangue novo de milhares de universitários.  Gente de sangue quente, às vezes descontrolada exatamente por causa do sistemático "pé na tábua"em que vive, mas de cuja generosidade é possível esperar tudo.  Mesmo aquilo que é mais necessário para a cidade: giro de duzentos graus na bússola do comportamento coletivo.
Vou lhes dar 3 diagnósticos para um mal que é típico da gente serraçumana.
1º ato: Cornélio Pires, no palco do Casino, fim dos anos 30: "é difícil entender este povo.  Gosta das minhas piadas porque ri de estourar.  Mas não move as mãos, não aplaude.  É frio!".
2º ato: um humilde botucatuense que nos anos 40 chegou a campeão brasileiro de um certo esporte: "o pessoal, lá na terra, parece que tem vergonha de me cumprimentar.  É onde menos sou festejado!".
3º ato: d. Frei Henrique, anos 50, assistindo a um bem organizado desfile cívico-religioso, ali na Cel. Moura:  "Aplaudam.  Vamos aplaudir, ó povo frio.  Não sabem o trabalho que dá?".
Tradução: se a rapaziada que forma com a Vanguarda ou em torno dela - excluída toda e qualquer conotação político-partidária - tem mensagem ou acredita tê-la e quer fazer algo pela cidade, não espere compreensão, nem aproveitar fundamentos existentes. Comece da base, feche os ouvidos, abra os olhos, veja as nossas lições mais práticas da história local e geral.  E construa o legado da sua geração.  Não espere aplausos.  Haverá exceções, busca de diálogo, oferecimento de ajuda que afinal os voluntariosos estão em toda parte.
Se a bandeira da Vanguarda é fazer e renovar, não atacar ou destruir, tem um  campo largo pela frente.  E merece o apoio de quem sente que é preciso mudar a mentalidade para não ter que mudar de cidade.  Espero que Vanguarda, liberta de ganchos políticos que a limitem e imobilizem, tenha forças para resistir aqueles que vão tentar destruí-la, pela omissão; negá-la, pela tentativa do ridículo; esfriá-la, pela inércia com que gelaram tantos outros empreendimentos igualmente generosos; desviá-la pelo descrédito organizado e sistemático.  E que ajude a repor Botucatu entre as primeiras das nossas cidades.  Se ela perdeu - quem negará que ela tenha perdido lastro, infelizmente? - foi só por culpa da sua gente.  Gente que brinca com o futuro, com o voto, com as lideranças.  Estou exagerando?  Voltem a cabeça e vejam as conquistas e realizações dos últimos 10 anos.  Individualizem os seus idealizadores.  A constatação será melancólica.
Por isso - sem que isto signifique pronunciamento político ou grupal, mas apenas mais um voto de esperança, confio em Vanguarda.  Como em todo movimento de juventude.  Nós já tivemos freios demais.  Precisamos de bons aceleradores.
Toque aqui, Vanguarda !  Prá frentex, gente."
O posicionamento de Hernâni Donato não deixa de ser uma aula de sociologia "botucuda".  Era o quadro, sem tirar nem por, de nossa sociedade sedimentada mas com falta de perspectivas para o futuro...
No 10º aniversário do "Vanguarda de Botucatu", em 1980, mais uma vez a palavra amiga e incentivadora de Hernâni:
"Pelos Primeiros Dez Anos de o "Vanguarda"
Segundo as agências de propaganda, um jornal atinge a maioridade ao superar a marca do ano de publicação.  Este período está para o jornalismo, assim como o nada saudoso "mal de sete dias"estava para crônica da mortalidade infantil nos velhos tempos.  Mas, quando se trata de jornal interiorano, elas, as agências, exigem três anos de publicação.  Aí sim, passam as folhas caboclas a gozar do "status" de jornal a merecer conceito, às vezes até uma programação que lhe oxigene os pulmões financeiros.
Pois o jornal do Delmanto está quebrando a barreira dos dez anos.  Mesmo quantos não subscrevem a linha política que le imprimiu ou imprime ao "seu" jornal, hão de parabenizá-lo por vir respondendo ao gongo que tiranicamente o convoca para novos assaltos dessa luta sem intervalos que é o fazer imprensa.  Principalmente - isto já é um refrão mas nem por isso é menos verdade - principalmente, imprensa interiorana.
Quantos amem Botucatu e respeitem o jornalismo - uma das formas de manter dignas as comunidades - hão de fazer coro ao nosso voto: o de que, pelos decênios em fora, o Armando saiba fazer bem o seu jornal.  E seja feliz com ele e por ele".

FOTO HISTÓRICA DA COMEMORAÇÃO DOS 40 ANOS DA ABL:
Saudação feita pelo Acadêmico ARMANDO MORAES DELMANTO ao escritor e historiador botucatuenseHERNÂNI DONATO, em 29/03/2001, durante a SESSÃO MAGNA conjunta das ACADEMIAS PAULISTA E BOTUCATUENSE DE LETRAS, por ocasião da entrega do troféu "FLOR ROXA DE TAQUARA-PÓCA", por sua atuação positiva a favor da História de Botucatu.


-Excelentíssimos Senhores Membros Efetivos das Academias Brasileira, Paulista e Botucatuense de Letras,
-Autoridades Civis, Militares e Eclesiásticas,
-Casal Anfitrião, Dr. Francisco Marins e Dona Elvira,
-Familiares do saudoso Prof. Pedreti Neto,
-Familiares do Acadêmico Hernâni Donato,
-Senhoras e Senhores.
No final do ano passado, Hernâni Donato proferiu palestra no prestigioso Conselho de Economia, Sociologia e Política da Federação do Comércio do Estado de São Paulo. Foi um sucesso. A revista Problemas Brasileiros, de janeiro/fevereiro deste ano trouxe, como encarte, a sua palestra: "No Brasil, o Paraíso - Um mito do descobrimento". Hernâni teve a gentileza de enviar-me o texto. Pois bem, li de um só fôlego o trabalho. E, ao agradecer por carta, conclui dizendo que o trabalho era fabuloso. E destaquei com letras maiúsculas e exclamações !!! (FABULOSO!!!!!)
Pois é com esse espírito e entusiasmo que faço, hoje, a saudação a Hernâni Donato.
Caríssimos Presidentes Erwin Theodor Rosenthal e Celso Vieira, SEM EXAGERO, podemos afirmar que o trabalho intelectual de Hernâni Donato é fabuloso. FABULOSO!!!!!
São mais de 60 livros! Desde livros infanto-juvenis, a contos, romances, traduções, biografias e historiografia. Historiografia de São Paulo ("A Revolução Constitucionalista de 32"), do Brasil ("Dicionário das Batalhas Brasileiras", "Breve História do Brasil" e "Os Índios do Brasil") e de Botucatu ("Achegas para a História de Botucatu"). É um Mestre no gênero!
 Os livros de Hernâni Donato são conhecidos de todos nós.
Aliás, Hernâni Donato é uma das raríssimas UNANIMIDADES DE BOTUCATU!!!!
Começou jovem, na pré-adolescência. Juntamente com o amigo Francisco Marins teve seu primeiro trabalho publicado no suplemento juvenil do "DIÁRIO DE S.PAULO", da capital: a novela "O TESOURO". Na 5ª. Série da ESCOLA NORMAL, juntamente com Francisco Marins e com o Prof. José Sartori, que pertenceu à nossa Academia, recentemente falecido, dirigiu o jornal "O ESTUDANTE".
Aluno da ESCOLA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA DE SÃO PAULO, agregada à USP, interrompeu os estudos para comandar um grupo que se propôs a retraçar o percurso do caminho pré-cabralino do PEABIRU, entre São Vicente e Cuzco, no Peru. O PEABIRU foi a grande paixão intelectual de Hernâni Donato. Em 1997, Hernâni publicou "SUMÉ E PEABIRU: mistérios maiores do século da descoberta", fruto de "mais de sessenta anos de pesquisa. No campo e nos textos". É, com certeza, obra única!
Na Capital, sempre atuou como homem de propaganda, de criação, de relações públicas. Presidiu a Editora Propaganda, atuou com destaque na Cia Melhoramentos, na Abril Cultural e foi um dos pioneiros da nossa televisão, produzindo um dos primeiros programas a ser campeão de audiência: "DO ZERO AO INFINITO".
Hernâni também foi um dos expoentes do jovem cinema nacional. Recebeu os prêmios SACI e GOVERNADOR DO ESTADO (1959) pela transposição para o cinema do seu romance "CHÃO BRUTO". Outro romance de Hernâni, "SELVA TRÁGICA", também cinematografado, foi exibido no Festival de Veneza.
Hernâni é botucatuense, filho de Antonio Donato e de Dona Adélia Leão Donato. É casado como Dona Nelly Martha e tem 3 filhos: Maria Cláudia, Maria Flávia e Antonio André. Hoje, é avô coruja de Bruno, Rodrigo, Fernanda e Natália.
Membro Efetivo do INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DE SÃO PAULO e da ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS, Hernâni Donato pertence a inúmeras outras Academias do Brasil e do Exterior sendo, com muita honra, PATRONO da ACADEMIA BOTUCATUENSE DE LETRAS. Como uma unanimidade municipal, por seu trabalho sobre a história de Botucatu, Hernâni tem o seu "ACHEGAS", como o livro oficial de nossa historiografia.
Todos os que estudam e pesquisam a história da cidade dos bons ares e das boas escolas temos, no "ACHEGAS" de Hernâni Donato o nosso norte, o nosso rumo! É o referencial histórico de Botucatu!
Mas eu gostaria de, ao homenagear Hernâni Donato por seu trabalho intelectual e, especialmente, por seu trabalho para a historiografia de Botucatu, citar dois fatos:
1)o primeiro, referente à primeira edição do "ACHEGAS" (1954), quando o então vereador Dr. SEBASTIÃO DE ALMEIDA PINTO (médico, escritor e historiador) propôs e prontamente foi atendido pelo Prefeito Municipal de Botucatu, EMÍLIO PEDUTI, dando o necessário numerário para que saísse a 1ª. Edição do livro de Hernâni. Logo após, também graças à sensibilidade desse prefeito, Hernâni Donato recebeu a incumbência para que fizesse o BRASÃO DO CENTENÁRIO!
Hernâni fez toda a criação intelectual imortalizada pela competência técnica do Prof. GASTÃO DAL FARRA. No BRASÃO DO CENTENÁRIO está tudo: desde o caminho do PEABIRU, a primeira capela, até os rios Pardo e Tietê. É uma beleza! É o retrato de Botucatu! O nosso 1º Símbolo Municipal até hoje é o preferido da população que espera seja oficializado pela municipalidade como o BRASÃO HISTÓRICO DE BOTUCATU!!
2) o segundo fato é referente à nossa história. Um dos mais importantes fatos da história de Botucatu: a criação da FACULDADE DE MEDICINA!
Esse fato, com certeza, mudou o destino de nossa cidade! Raramente não encontraremos a devida citação dos fatos de nossa história no "ACHEGAS". É Verdade! Sobre a história da conquista da FACULDADE DE MEDICINA, Hernâni começa por afirmar:
"...Por que não levar ao governo a sugestão de instalar ali (Rubião Jr) uma faculdade de medicina?A muitos, a idéia pareceu demasiada. Chegou a assustar o núcleo dirigente local. Receavam desencadear campanha que dificilmente chegaria a bom termo. Se fosse Direito... Mas a juventude adotou a ousadia. Na capital constituiu-se comissão de botucatuenses ligados à imprensa e à política para agitar o assunto, independente ou até contra o poder municipal..."
Nessa parte eu interrompo a leitura porque o texto de Hernâni, embora citando os pioneiros dessa luta, é por demais modesto...
E logo vocês compreenderão o porquê...
Busco no "MEMÓRIAS DE BOTUCATU", também fruto de muitas pesquisas e depoimentos, o final do relato:
"...Se havia o receio inicial das autoridade temerosas de uma empreitada impossível, o mesmo não ocorria com a juventude "botucuda". Nos jovens, o destaque para JOSÉ FARALDO que era jornalista dos então poderosos DIÁRIOS ASSOCIADOS, lotado no Setor de Imprensa do Palácio dos Campos Elísios, e para HERNÂNI DONATO, jornalista e escritor em ascensão que comandaram o Grupo de Ação inicial, "balançando" as estruturas, convocando as autoridades, mobilizando a população e realizando um trabalho de relações públicas (especialidade de Hernâni) junto à imprensa botucatuense e paulista...
O que aconteceu depois todos nós já sabemos...
O que aconteceu depois faz parte da história de nossa gloriosa FACULDADE DE MEDICINA, hoje pertencente à UNESP. E a história oficial da grande conquista é o exemplo e motivo para atual luta pela conquista da REITORIA da UNESP para Botucatu.
ESSE É O CENÁRIO!!!
O sempre Mestre, AGOSTINHO MINICUCCI, criou uma expressão de sucesso: CAMINHADA PEABIRUANA, que representa a caminhada de todos os botucatuenses dedicados a estudar a nossa história, valorizando-a, destacando seus principais feitos, divulgando seus heróis municipais, enfim, vivenciando a nossa cidadania.
Essa expressão é própria para o trabalho intelectual de Hernâni Donato!
A CAMINHADA PEABIRUANA de Hernâni Donato foi e continua sendo um SUCESSO!
Um sucesso fabuloso!
FABULOSO!!!!
Obrigado, Hernâni!
Parabéns! Avante!


S.P. 01.04.2001
Caro Armando Delmanto:
Você mesmo terá provado o quanto é difícil o ser "profeta na sua terra", qualquer manifestação em contrário a esse afirmar retira do orgulho o selo do pecado. Isto entra no considerar tudo o que me tem sucedido em Botucatu, especialmente no 29.03.
Muito mais fico devendo quando a ode é cantada por um solista da sua qualidade. Não mereço tanto. Bem por isso, por favor, aceite o meu agradecimento. Pelo que fez e disse. Só por isso terá valido a festa.
Abraço. Grato.
HERNÂNI.

REGISTRO HISTÓRICO:
Ao apresentar os meus sentimentos a Dona Nelly e aos filhos e netos do Hernâni Donato, quero expressar os mais sinceros agradecimentos ao Grande Mestre que soube participar e legar para as gerações jovens a sua sabedoria e o seu idealismo.
SAUDADES, HERNÂNI!

novembro 05, 2011

Dia da Cultura e dia de Rui Barbosa


“Eia, senhores! Mocidade viril!
Inteligência brasileira!
Nobre nação esplorada!
Brasil de ontem e amanhã!
Daí-nos o de hoje, que nos falta”
Rui Barbosa

No Dia Nacional da Cultura – dia 5 de novembro! - que é comemorado no dia do nascimento de RUI BARBOSA, vamos procurar fazer um retrospecto da atuação desse grande brasileiro que soube dignificar o exercício da cidadania e representar – com competência e idealismo! – a ciência jurídica no Brasil. Foi um dos Fundadores da Academia Brasileira de Letras – ABL , tendo sido seu presidente de 1908 a 1919.

Rui Barbosa cursou a tradicional Faculdade de Direito do Largo de São Francisco -USP, berço de muitos estadistas, inclusive, de 9 ex-Presidentes da República:
Prudente de Moraes,
Campos Sales,
Rodrigues Alves,
Afonso Pena,
Venceslau Brás,
Delfim Moreira,
Artur Bernardes,
Washington Luís e
Jânio Quadros
.

De todos eles - todos brilhantes e patriotas modelares - a figura de Rui Barbosa se projeta em primeiro lugar, exatamente ele que por duas vezes disputou a Presidência da República sem conseguir o seu intento, vencido pela velha oligarquia política que manipulava os currais eleitorais e fabricava os dirigentes. Hoje, poucos haverão de se lembrar dos que foram eleitos na “disputa” presidencial com Rui Barbosa. Por outro lado, toda a Nação Brasileira o cultua e tem Rui Barbosa como orgulho da Pátria e exemplo às novas gerações!


Iremos abordar a vida desse grande brasileiro por 5 aspectos que lhe caracterizaram a trajetória de homem público: o político, o jurista, o jornalista, o diplomata e o exilado.

Nascido aos 5 dias do mês de novembro de 1849, na cidade de Salvador, Bahia, realizou seus estudos no Ginásio Baiano e, ao depois, matriculou-se na Faculdade de Direito de Recife, transferindo-se, posteriormente, para a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo.

O POLÍTICO



Na tradicional Faculdade do Largo de São Francisco(USP) é que teve início a sua militância política : a 13 de agosto de 1868, pronunciava seu primeiro discurso político para homenagear José Bonifácio “a encarnação mais fascinadora das idéias liberais”, que vinha assumir a sua cátedra de mestre. A partir daí, nunca mais ficou ausente da vida pública brasileira. Em 1868, ainda estudante, Rui atira-se à campanha abolicionista e participa de debates na Loja América (loja maçônica que reunia o pessoal ligado à Faculdade de Direito, juristas, advogados e universitários), fazendo com que seu ponto de vista a favor de que todos os membros daquela Loja libertassem o ventre de suas escravas, prevalecesse. Com a República, passa a ter destaque especial na tribuna do Senado por longos anos. É considerado o Estadista da República, assim como Joaquim Nabuco foi considerado o Estadista do Império. Na verdade, Rui não fora um republicano. É ele mesmo quem nos diz:

“Sinceramente monarquista era eu em 1889. Não por admitir pre-excelências formais desse ao outro sistema de governo; mas porque a monarquia parlamentar, lealmente observada, encerra em si todas as virtudes preconizadas, sem o grande mal da República, o seu mal inevitável. O mal gravíssimo e inevitável das instituições republicanas consiste em deixar exposto à ilimitada concorrência das ambições menos dignas o primeiro lugar do Estado e, desta sorte, o condenar a ser ocupado, em regra, pela mediocridade”.

Rui, sem ter sido um republicano foi, no entanto, o homem que fez a República. O destino traçou-lhe essa tarefa...

Seus artigos no Diário de Notícias, fendiam o arcabouço da monarquia. E ele não pregava a República. Logo após a Proclamação da República, Rui Barbosa é convocado por Deodoro.. O Marechal o designa como Ministro da Fazenda e lhe entrega a tarefa de dar forma jurídica ao novo sistema de governo. Na condição de Ministro da Fazenda e Vice-Chefe de Govêrno, Rui redigiu o decreto nº 1 da República, chamado de “providencial”, porque em seu artigo 1º, salvara a unidade nacional que o Império realizara:

a bandeira da federação passava, nesse dia, das colunas do Diário de Notícias, pela mão de Rui, para a letra de decreto que proclamava a República Federativa dos Estados Unidos do Brasil.” Naquela fase memorável da história do nosso país, só um homem de cultura e de capacidade acima do comum poderia salvar o Brasil da anarquia.

É dele o projeto da Constituição de 24 de fevereiro de 1891. Redigiu-a em 2 dias, de seu próprio punho. Modelou-a com carinho, deu-lhe formas que o seu gênio lhe inspirara, caprichou na confecção dos seus contornos, lapidou-a com a beleza incomparável da sua arte de mestre da língua e da pureza de estilo. Para fazê-la, Rui Barbosa buscou o modêlo norte-americano. Achou que nesse modêlo estava o ideal para o Brasil, de acordo com nossa índole e a nossa formação democrática. O Govêrno da Lei. A impessoalidade da Lei acima dos homens. Essa foi a linha mestra da construção de Rui : o seu projeto é o de uma República organizada pela Lei e da Lei interpretada pelos Tribunais.

Com o passar dos tempos, o próprio Rui passa a propugnar pela alteração constitucional, de acordo com as mudanças sociais que se verificavam em todo mundo. Já em 1919, em sua campanha presidencial, Rui Barbosa reconhecia:

“As nossas constituições têm ainda por norma as declarações de direitos consagrados no século XVII. Suas fórmulas já não correspondem exatamente à consciência jurídica do universo. A inflexibilidade individualista dessas cartas, imortais mas não imutáveis, alguma coisa tem que ceder (quando já lhes passa pelo quadrante o sol do seu terceiro século) ao sopro da socialização que agita o mundo.”

Candidato duas vezes à Presidência da República (1909 e em 1919), por dois movimentos de opinião nacional, um contra as ditaduras militares, outro contra as oligarquias civis, em ambas ocasiões levou ao seio da população, nas capitais dos grandes estados, a sua proposta, a sua bandeira. A luta não fora improdutiva : ficara a semente. A idéia de um país moderno, sob o império da Lei, e de uma democracia vigorosa e de um povo livre, ficara gravada na memória cívica do brasileiro.

O JURISTA



Formado a 28 de outubro de 1870, Rui inicia a sua carreira ao lado do Conselheiro Souza Dantas. É o próprio Rui que se auto-define como advogado :
“Um invencível horror à violência, uma sede insaciável de justiça constitui o fundo de minha índole e tem modelado irresistivelmente a minha vida inteira. Simpatizei sempre com os fracos, respeitei sempre os vencidos, patrocinei sempre os oprimidos. Minha estréia na tribuna popular, ainda estudante, foi a defesa de um escravo contra o senhor. Minha estréia na tribuna forense foi a desafronta da honra de uma inocente filha do povo contra a lascívia opulente de um mandão. Minha estréia na tribuna parlamentar foi o patrocínio da eleição de um conservador contra o partido liberal em que eu militava.”


O JORNALISTA



Ainda estudante fundou com Américo de Campos , Luís Gama, Elói Benedito Ottoni e Bernardino Pamplona, o Radical Paulistano : era a campanha abolicionista. Depois o Diário da Bahia, o Jornal do Comércio, O País, até que em 1889 - ano da República - funda o famoso Diário de Notícias. Seus artigos no Diário de Notícias foram reconhecidos como peça básica para a derrocada da monarquia. Sofreu o exílio e, na provação, escreve matérias jornalísticas de fundo liberal democrático. Funda a Imprensa, milita em outros órgãos jornalísticos de projeção nacional. Era o jornalista na acepção da palavra. Defensor das liberdades e crítico implacável dos poderosos que atropelavam os direitos humanos e conspurcavam a democracia. Foi um lutador e deixou marcada a sua presença e as lições de patriotismo.


O DIPLOMATA



Em 1907, o Barão do Rio Branco convida Rui para que aceite a Chefia da Delegação Brasileira à 2ª Conferência de Paz, em Haia, Holanda. Rui hesita em aceitar, mas acaba atendendo aos apelos feitos. Rui chegou a Haia em junho de 1907, sendo nomeado, por indicação da Rússia, Presidente Honorário da 1ª Comissão. Sua atuação surpreendeu os representantes das grandes nações. Rui defendia os pequenos países e propugnava pela igualdade de tratamento entre as nações. Discursava em perfeito inglês e em inatacável francês. O brasileiro, pequeno de estatura, surpreendia o mundo pela sua cultura e pelo seu preparo.

De sua atuação, dizia W. Stead, in “O Brasil em Haia” : “As duas forças pessoais da Conferência foram o Barão Marshall, da Alemanha, e o Dr. Barbosa, do Brasil. Atrás do Barão Marshall, porém, se erguia todo o poder militar do Império Germânico... Atrás do Dr. Barbosa estava apenas a longínqua república desconhecida, com um exército incapaz de qualquer movimento militar e uma esquadra por existir. Todavia, ao acabar a Conferência, o Dr. Barbosa pesava mais (counted for more) do que o Barão Marshall. Maior triunfo pessoal, na recente conferência, nenhum dos seus membros o obteve tanto mais notável foi quando o alcançou ele por si só, sem nenhum auxílio estranho.”

Estava criada a imagem do "Águia de Haia". Logo após o seu regresso, era convidado pela Universidade de Yale (EUA) para realizar uma série de conferências. Em 1914, é convidado a ser Embaixador Especial do Brasil às comemorações do centenário de Tucumán. A 14 de julho de 1914, recebe o Diploma de Membro Honorário da Faculdade de Direito e Ciências de Buenos Aires.

O EXILADO.



nos primeiros anos de República, um clima político tumultuado, que foram marcados pela tentativa de Deodoro da Fonseca querendo a dissolução do Congresso e poderes especiais. Rui Barbosa passaria para a oposição ao governo federal e temendo por sua própria vida, vê-se compelido ao exílio no exterior, primeiramente em Buenos Aires, depois em Lisboa e Paris, e, finalmente, em Londres, onde residirá entre 1894 e 1895. De lá, escreve as famosas “Cartas da Inglaterra”, escritas sob a forma de correspondência para o Jornal do Commercio, entre 1894 e 1895. “Cartas de Inglaterra” são a mais rica expressão do pensamento
político e filosófico de Rui Barbosa.
Em uma delas, dá a definição do que entendia por militarismo:

“Entre as instituições militares e o militarismo vai, em substância, o
abismo de uma contradição radical. O militarismo, governo da nação pela
espada,
arruína as instituições militares, subalternidade legal da espada à
nação.
As instituições militares organizam juridicamente a força. O
militarismo a desorganiza. O militarismo está para o exército, como o
fanatismo para a religião, como o charlatanismo para a ciência, como o
industrialismo para a indústria, como o mercantilismo para o comércio,
como o cesarismo para a realeza, como o demagogismo para a
democracia, como o absolutismo para a ordem, como o egoísmo para o
eu.
Elas são a regra; ele, o desmantelo, o solapamento, a aluição dessa
defesa,
encarecida nos orçamentos, mas reduzida, na sua expressão real,
a um simulacro”.


Esse é o homem.

Esse é o mito: Rui Barbosa.

Impossível citar tudo o que se tem de registro da atuação patriótica e brilhante de Rui nos destinos do Brasil. A 1º de março de 1923, morria o maior de todos os brasileiros.
Hoje, a nossa pequena homenagem. Que fique o seu exemplo. Que fique a sua atuação cívica. Que fique o seu idealismo. Que fique o seu patriotismo!

Nota: “As ilustrações de Rui Barbosa são de Armando Pacheco, para o livro “História da Vida de Rui Barbosa”, de Américo Palha, Distribuidora Record, 1963".







Fundação Casa de Rui Barbosa



A Fundação Casa de Rui Barbosa é uma instituição subordinada ao Ministério da Cultura do Brasil, que leva o nome do ex-ministro da fazendo Rui Barbosa, funcionando na casa onde morava no Rio de Janeiro, quando de sua atuação político-intelectual.





Destina-se ao fomento da produção intelectual, consulta bibliográfica e preservação memorial. A fundação oferece um espaço reservado ao trabalho intelectual, à consulta de livros e documentos e à preservação da memória brasileira, com estudos e pesquisas (estudos ruianos, de política cultural, história, direito e filologia) e em cultura brasileira em geral.
Telefone: (21)3289-4600.
oferecem horários próprios:
:: Jardim: 2ª a 6ª feira, das 8 às 18h; sábados e domingos, das 9 às 18h.
:: Museu: de 3ª a 6ª feira, das 9 às 17h30min. Na última 3ª feira do mês aberto até às 20h Aos sábados, domingos e feriados das 14 às 18h, com a última entrada 30 minutos antes do fechamento. A taxa de ingresso é R$ 2,00. Menores de 10 anos e maiores de 65 anos não pagam ingresso. Entrada franca aos domingos. Veja o calendário de funcionamento do museu.
:: Biblioteca e arquivos: 2ª a 6ª feira, das 9 às 18h, com a última entrada 45 minutos antes do fechamento
:: Biblioteca infantil: 2ª a 6ª feira, das 9h30 às 12h e das 14 às 17h, sendo as 5as feiras reservadas para atendimento a escolas.